20101221
.

Transbordante passei entre as imagens
Excessivas das terras e dos céus
Megulhando no corpo desse deus
Que se oferece, como um beijo, nas paisagens.
(...)
As minhas mãos mantêm as estrelas,
Seguro a minha alma para que não se quebre
A melodia que vai de flor em flor,
Arranco o mar do mar e ponho-o em mim
E o bater do meu coração sustenta o ritmo das coisas.
(sophia)
EM TODOS OS JARDINS

Em todos os jardins hei-de florir,
Em todos beberei a lua cheia,
Quando enfim no meu fim eu possuir
Todas as praias onde o mar ondeia.
Um dia eu serei mar e areia,
A tudo quanto existe me hei-de unir,
E o meu sangue arrasta em cada veia
Esse abraço que um dia se há-de abrir.
Então eu receberei no meu desejo
Todo o fogo que habita na floresta
Conhecido por mim como num beijo.
Então serei o ritmo das paisagens,
A secreta abundância dessa festa
Que eu via prometida nas imagens.
[ sophia de mello breyner andersen ]
20100813
desejar ser
XI

O mundo não foi feito em alfabeto. Senão que primeiro
em água e luz. Depois árvore. Depois lagartixas.
Apareceu um homem na beira do rio. Apareceu uma ave
na beira do rio. Apareceu a concha. E o mar estava
na concha. A pedra foi descoberta por um índio. O
índio fez fósforo da pedra e inventou o fogo pra
gente fazer bóia. Um menino escutava o verme de uma
planta, que era pardo. Sonhava-se muito com pererecas
e com mulheres. As moscas davam flor em março. Depois
encontramos com a alma da chuva que vinha do lado
da Bolívia - e demos no pé.
(Rogaciano era índio guató e me contou essa cosmologia.)
(M.B.)
20100717
20100629
tu-you-you

Mosca dependurada na beira de um ralo –
Acho mais importante do que uma jóia pendente.
Os pequenos invólucros para múmias de passarinhos
que os antigos egípcios faziam
Acho mais importante do que o sarcófago de Tutan-
câmon.
O homem que deixou a vida por se sentir um esgoto –
Acho mais importante do que uma Usina Nuclear.
Aliás, o cu de uma formiga é também muito mais
importante do que uma Usina Nuclear.
As coisas que não têm dimensões são muito impor-
tantes
Assim, o pássaro tu-you-you é mais importante por seus
pronomes do que por seu tamanho de crescer.
É no ínfimo que vejo a exuberância
[BARROS, Manoel. De.10.In:Livro Sobre Nada, Rio De Janeiro: Record, 1996.P.55]
seiva d'árvore
20100622
uttaratantra
20100617
20100602
20100601
deferência
20100530
20100526
[Eternidade]
Ouça bem...

"Ouça bem... é preciso amar o inútil.
Criar pombos sem pensar em comê-los,
plantar roseiras sem pensar em colher rosas,
escrever sem pensar em publicar,
fazer coisas assim, sem esperar nada em troca.
A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta,
mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas
A música, este céu que promete chuva,
aquela estrelinha que está nascendo, está vendo aquela estrelinha?
Há milênios não tem feito nada
não guiou os reis magos, nem os pastores, nem os marinheiros perdidos
Não faz nada
ninguém repara nela porque ela é inútil,
pois é preciso amar o inutil, porque no inútil está a beleza...
E está Deus...
Inútil é o amor que tenho por você..."
[ "Ciranda de Pedra" - L.F.T ]
20100522
as coisas
Tratado das Grandezas do Ínfimo

IV
No Tratado das Grandezas do Ínfimo estava
escrito:
Poesia é quando a tarde está competente para
Dálias.
É quando
Ao lado de um pardal o dia dorme antes.
Quando o homem faz sua primeira lagartixa
É quando um trevo assume a noite
E um sapo engole as auroras
Uma Didática da Invenção
do "O Livro das Ignorãnças" - manoel de barros
20100518
espicha ôlho

XX
Com 100 anos de escória uma lata aprende a rezar.
Com 100 anos de escombros um sapo vira árvore e cresce
por cima das pedras até dar leite.
Insetos levam mais de 100 anos para uma folha sê-los.
Uma pedra de arroio leva mais de 100 anos para ter murmúrios.
Em seixal de cor seca estrelas pousam despidas.
Mariposas que pousam em osso de porco preferem melhor
as cores tortas.
Com menos de 3 meses mosquitos completam a sua
eternidade.
Um ente enfermo de árvore, com menos de 100 anos, perde
o contorno das folhas.
Aranha com olho de estame no lodo se despedra.
Quando chove nos braços da formiga o horizonte diminui.
Os cardos que vivem nos pedrouços têm a mesma sintaxe
que os escorpiões de areia.
A jia, quando chove, tinge de azul o seu coaxo.
Lagartos empernam as pedras de preferência no inverno.
O vôo do jaburu é mais encorpado do que o vôo das horas.
Besouro só entra em amavios se encontra a fêmea dele
vagando por escórias...
A 15 metros do arco-íris o sol é cheiroso.
Caracóis não aplicam saliva em vidros; mas, nos brejos,
se embutem até o latejo.
Nas brisas vem sempre um silêncio de garças.
Mais alto que o escuro é o rumor dos peixes.
Uma árvore bem gorjeada, com poucos segundos, passa a
fazer parte dos pássaros que a gorjeiam.
Quando a rã de cor palha está para ter - ela espicha os
olhinhos para Deus.
De cada 20 calangos, enlanguescidos por estrelas, 15 perdem
o rumo das grotas.
Todas estas informações têm uma soberba desimportância
científica - como andar de costas.
[ de "O Guardador de Águas" - manoel de barros ]
20100517
Perdoando Deus

Eu ia andando pela avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade. Não era tour de proprétaire, nada daquilo era meu, nem eu queria. Mas parece-me que me sentia satisfeita com o que via.
Tive então um sentimento de que nunca ouvi falar. Por puro carinho, eu me senti a mãe de Deus, que era a Terra, o mundo. Por puro carinho, mesmo, sem nenhuma prepotência ou glória, sem o menor senso de superioridade ou igualdade, eu era por carinho a mãe do que existe. Soube também que se tudo isso “fosse mesmo” o que eu sentia – e não possivelmente um equívoco de sentimento – que Deus sem nenhum orgulho e nenhuma pequenez se deixaria acarinhar, e sem nenhum compromisso comigo. Ser-Lhe-ia aceitável a intimidade com que eu fazia carinho. O sentimento era novo para mim, mas muito certo, e não ocorrera antes apenas porque não tinha podido ser. Sei que se ama ao que é Deus. Com amor grave, amor solene, respeito, medo, e reverência. Mas nunca tinham me falado de carinho maternal por Ele. E assim como meu carinho por um filho não o reduz, até o alarga, assim ser mãe do mundo era o meu amor apenas livre.
E foi quando quase pisei num enorme rato morto. Em menos de um segundo estava eu eriçada pelo terror de viver, em menos de um segundo estilhaçava-me toda em pânico, e controlava como podia o meu mais profundo grito. Quase correndo de medo, cega entre as pessoas, terminei no outro quarteirão encostada a um poste, cerrando violentamente os olhos, que não queriam mais ver. Mas a imagem colava-se às pálpebras: um grande rato ruivo, de cauda enorme, com os pés esmagados, e morto, quieto, ruivo. O meu medo desmesurado de ratos.
Toda trêmula, consegui continuar a viver. Toda perplexa continuei a andar, com a boca infantilizada pela surpresa. Tentei cortar a conexão entre os dois fatos: o que eu sentira minutos antes e o rato. Mas era inútil. Pelo menos a contiguidade ligava-os. Os dois fatos tinham ilogicamente um nexo. Espantava-me que um rato tivesse sido o meu contraponto. E a revolta de súbito me tomou: então não podia eu me entregar desprevenida ao amor? De que estava Deus querendo me lembrar? Não sou pessoa que precise ser lembrada de que dentro de tudo há o sangue. Não só não esqueço o sangue de dentro como eu o admito e o quero, sou demais o sangue para esquecer o sangue, e para mim a palavra espiritual não tem sentido, e nem a palavra terrena tem sentido. Não era preciso ter jogado na minha cara tão nua um rato. Não naquele instante. Bem poderia ter sido levado em conta o pavor que desde pequena me alucina e persegue, os ratos já riram de mim, no passado do mundo os ratos já me devoraram com pressa e raiva. Então era assim?, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato? A grosseria de Deus me feria e insultava-me. Deus era bruto. Andando com o coração fechado, minha decepção era tão inconsolável como só em criança fui decepcionada. Continuei andando, procurando esquecer. Mas só me ocorria a vingança. Mas que vingança poderia eu contra um Deus Todo-Poderoso, contra um Deus que até com um rato esmagado podia me esmagar? Minha vulnerabilidade de criatura só. Na minha vontade de vingança nem ao menos eu podia encará-Lo, pois eu não sabia onde é que Ele mais estava, qual seria a coisa onde Ele mais estava e que eu, olhando com raiva essa coisa, eu O visse? no rato? naquela janela? nas pedras do chão? Em mim é que Ele não estava mais. Em mim é que eu não O via mais.
Então a vingança dos fracos me ocorreu: ah, é assim? pois então não guardarei segredo, e vou contar. Sei que é ignóbil ter entrado na intimidade de Alguém, e depois contar os segredos, mas vou contar – não conte, só por carinho não conte, guarde para você mesma as vergonhas Dele – mas vou contar, sim, vou espalhar isso que me aconteceu, dessa vez não vai ficar por isso mesmo, vou contar o que Ele fez, vou estragar a Sua reputação.
…mas quem sabe, foi porque o mundo também é rato, eu eu tinha pensado que já estava pronta para o rato também. Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. É porque eu não quis o amor solene, sem compreender que a solenidade ritualiza a incompreensão e a transforma em oferenda. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque eu ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia seu eu também queria o rato para mim. É porque só poderei ser mãe das coisas quando puder pegar um rato na mão. Sei que nunca poderei pegar num rato sem morrer da minha pior morte. Então, pois, que eu use o magnificat que entoa às cegas sobre o que não se sabe nem vê. E que eu use o formalismo que me afasta. Porque o formalismo não tem ferido a minha simplicidade, e sim o meu orgulho, pois é pelo orgulho de ter nascido que me sinto tão íntima do mundo, mas este mundo que eu ainda extraí de mim de um grito mudo. Porque o rato existe tanto quanto eu, e talvez nem eu nem o rato sejamos para ser vistos por nós mesmos, a distância nos iguala. Talvez eu tenha que aceitar antes de mais nada esta minha natureza que quer a morte de um rato. Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Talvez eu não possa olhar o rato enquanto não olhar sem lividez esta minha alma que é apenas contida. Talvez eu tenha que chamar de “mundo” esse meu modo de ser um pouco de tudo. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho da minha natureza? Enquanto eu imaginar que “Deus” é bom só porque eu sou ruim, não estarei amando a nada: será apenas o meu modo de me acusar. Eu, que sem nem ao menos ter me percorrido toda, já escolhi amar o meu contrário, e ao meu contrário quero chamar de Deus. Eu que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, que de mim mesma consegui foi me submeter a mim mesma, pois ou tão mais inexorável do que eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu. Porque enquanto eu amar a um Deus só porque não me quero, serei um dado marcado, e o jogo de minha vida maior não se fará. Enquanto eu inventar Deus, Ele não existe.
[ Clarice Lispector - "Felicidade Clandestina" ]
20100513
La creación

La mujer y el hombre soñaban que Dios los estaba soñando.
Dios los soñaba mientras cantaba y agitaba sus maracas, envuelto en humo de tabaco, y se sentía feliz y también estremecido por la duda y el misterio.
Los indios makiritare saben que si Dios sueña con comida, fructifica y da de comer. Si Dios sueña con la vida, nace y da nacimiento.
La mujer y el hombre soñaban que en el sueño de Dios aparecía un gran huevo brillante. Dentro del huevo, ellos cantaban y bailaban y armaban mucho alboroto, porque estaban locos de ganas de nacer. Soñaban que en el sueño de Dios la alegría era más fuerte que la duda y el misterio; y Dios, soñando, los creaba, y cantando decía:
—Rompo este huevo y nace la mujer y nace el hombre. Y juntos vivirán y morirán. Pero nacerán nuevamente. Nacerán y volverán a morir y otra vez nacerán. Y nunca más dejarán de nacer, porque la muerte es mentira.
Eduardo Galeano
[ Memoria del fuego - "Los Nacimientos" ]
20100505
Diário de Bugrinha

(Excertos)
22.1
O nome de um passarinho que vive no cisco é joãoninguém. Ele parece com Bernardo.
23.2
Lagartixas têm odor verde.
2.3
Formiga é um ser tão pequeno que não agüenta nem neblina. Bernardo me ensinou: Para infantilizar formigas é só pingar um pouquinho de água no coração delas. Achei fácil.
23.2
Quem ama exerce Deus — a mãe disse. Uma açucena me ama. Uma açucena exerce Deus?
2.3
Eu queria crescer pra passarinho...
5.3
A voz de meu avô arfa. Estava com um livro debaixo dos olhos. Vô! o livro está de cabeça pra baixo. Estou deslendo.
5.6
O frio se encolheu nos passarinhos. Ó noite congelada de jacintos! Eu estou transida de pétalas.
7.8
O pai trouxe do campo um filhote de urubu. Ele é branco e já fede.
12.8
As garças descem nos brejos que nem brisas. Todas as manhãs.
10.9
Um sapo feneceu 3 borboletas de uma vez atrás de casa. Ele fazia uma estultícia?
13.9
A mãe bateu no Mano Preto. Falou que eu não apanhava porque não dei motivo. Subi no pico do telhado para dar motivo. Aqui de cima do telhado a lua prateava. A mãe disse que aquilo não era motivo.
19.9
Uma égua iniciava meu irmão. O pai ralhou com ele. Meu irmão foi entrando para inseto até desaparecer. Ficou dentro do mato até amanhã.
1.1
O Bernardo fala com pedra, fala com nada, fala com árvore. As plantas querem o corpo dele para crescer por sobre. Passarinho já faz poleiro na sua cabeça.
2.2
A mãe disse que Bernardo é bocó. Uma pessoa sem pensa.
5.2
Sem chuvas, já reparei, as andorinhas perdem o poder de voar livres.
29.2
Hoje o Lara morreu picado de cobra. Fizeram seu caixão de costaneiras. Meu avô encostou no caixão. Ué, eu que morri e quem está no caixão é o Lara! Meu avô enxergava mal.
2.1.1926
Catre-Velho é um ser confortável para moscas. Ele nem espanta algumas.
12.1
Choveu de noite até encostar em mim. O rio deve estar mais gordo. Escutei um perfume de sol nas águas.
1.3
As árvores me começam.
1.4
Uma violeta me pensou. Me encostei no azul de sua tarde.
10.4
Os patos prolongam meu olhar... Quando passam levando a tarde para longe eu acompanho...
21.4
Pensar que a gente cessa é íngreme. Minha alegria ficou sem voz.
22.4
Hoje completei 10 anos. Fabriquei um brinquedo com palavras. Minha mãe gostou. É assim:
De noite o silêncio estica os lírios.
do "Livro Sobre Nada" (Arte de Infantilizar Formigas)
Soberania

Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que
tentara pegar na bunda do vento — mas o rabo
do vento escorregava muito e eu não consegui
pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso
carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos
deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado
e disse que eu tivera um vareio da imaginação.
Mas que esses vareios acabariam com os estudos.
E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li
alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.
E dei de estudar pra frente. Aprendi a teoria
das idéias e da razão pura. Especulei filósofos
e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande
saber. Achei que os eruditos nas suas altas
abstrações se esqueciam das coisas simples da
terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo
— o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase:
A imaginação é mais importante do que o saber.
Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei
um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu
olho começou a ver de novo as pobres coisas do
chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E
meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam
o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no
corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas
podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as
próprias asas. E vi que o homem não tem soberania
nem pra ser um bentevi.
Texto extraído do livro (caixinha) "Memórias Inventadas - A Terceira Infância"
[ Manoel de Barros ]
20100503
DESPEINANDO SUEÑOS
20100428
O Canto de Dança

Certo dia, à noitinha, caminhava Zaratustra no bosque com seus discípulos; e, ao procurar uma fonte, eis que chegou a um verde prado, circundado de silenciosas árvores e moitas; nele, algumas jovens dançavam umas com as outras. Assim que as jovens reconheceram Zaratustra, interromperam a dança; Zaratustra, porém, delas se aproximou, com gestos amigáveis, e falou-lhes estas palavras:
“Não pareis de dançar, amáveis jovens! Não é um desmancha-prazares de mau-olhado, que aqui chegou, nem um inimigo dos jovens.
Intercessor de Deus sou eu junto ao Diabo: mas este é o espírito da gravidade. Como poderia eu ser inimigo da vossa graciosa, divina dança? Ou de pés de jovens com lindos tornozelos?
Eu sou uma floresta, sem dúvida, e uma noite de árvores escuras; mas quem não teme minha escuridão, encontra também roseirais, debaixo dos meus ciprestes.
E encontra, também, o pequeno deus que é o preferido dos jovens: está deitado junto da fonte, em silêncio, de olhos fechados.
Em verdade, adormeceu em pleno dia, o preguiçoso! Terá andado demais caçando borboletas?
Não vos zangueis comigo, lindas dançarinas, de eu que castigue um pouco o pequeno deus! Gritará, certamente, e chorará – mas dá vontade de rir, ainda quando chora!
E, com lágrimas nos olhos, deverá pedir-vos uma dança; e eu mesmo quero acompanhar a sua dança com um canto.
Um canto de dança e de mofa ao espírito da gravidade, ao meu altíssimo e poderosíssimo diabo, do qual dizem que é ‘o senhor do mundo’.” –
E este é o canto que Zaratustra entoou, enquanto Cupido e as jovens dançavam juntos.
Em teus olhos olhei, recentemente, ó vida! E pareceu-me, então, que me afundava no imperscrutável.
Mas tiraste-me para fora com um anzol de ouro; e riste, zombeteira, quando te chamei imperscrutável.
“Assim falam todos os peixes” , disseste; “aquilo que eles não perscrutam é imperscrutável.
Mas eu sou apenas mutável e selvagem e, em tudo, mulher, e não precisamente uma mulher virtuosa.
Muito embora vós, homens, me chameis ‘a profunda’, ‘a fiel’, ‘a eterna’, ‘a misteriosa’.
Mas vós, homens, nos presenteais sempre com vossas próprias virtudes – ai de mim, ó virtuosos!”
Assim ela ria, a enganadora; mas eu nunca acredito nela e em seu riso, quando fala mal de si mesma.
E, quando conversei a sós com a minha selvagem sabedoria, disse-me esta, zangada: “Tu queres, desejas, amas ; e somente por isso louvas a vida!”
Quase lhe respondi mal e disse a verdade àquela zangada; e nunca podemos responder pior do que quando “dizemos a verdade” à nossa sabedoria.
Tais são, com efeito, as relações entre nós três. Do fundo do meu ser, amo somente a vida – e, na verdade, nunca a amo tanto como quando a detesto!
Que, porém, eu seja condescendente com a sabedoria, e muitas vezes condescendente demais: isto provém de que ela me lembra demasiado a vida!
Tem os seus olhos, o seu sorriso e até, mesmo, o seu pequeno caniço com o anzol de ouro; é minha culpa se as duas são tão parecidas?
E quando, certa vez, a vida me perguntou: “Que vem a ser a sabedoria?” – respondi solícito: “Pois é, ai de mim, a sabedoria!
Tem-se sede dela e não se fica saciado, olha-se para ela através de véus, procura-se caçá-la com redes.
É bonita? Sei lá! Mas é uma isca com que as mais velhas carpas ainda se deixam fisgar.
Mutável, é ela, e voluntariosa; vi-a, freqüentemente, morder os lábios e passar o pente no cabelo a contrapelo.
Talvez seja má e falsa e, em tudo, feminina; mas, quando fala mal de si mesma, é então que mais seduz.”
Depois que disse isto à vida, esta riu maldosamente e fechou os olhos. “De quem estiveste falando?”, indagou. “De mim, não é verdade?
E ainda que tivesses razão – isso lá se diz na minha cara! Mas, agora, vamos, fala, também, da tua sabedoria!”
Ah, voltaste a abrir os olhos, então, ó amada vida! E pareceu-me que, de novo, eu me afundava no imperscrutável. –
[ "Assim Falou Zaratustra" - Friedrich Nietzsche ]
20100425
os dias de verão

Os dias de verão vastos como um reino
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo
Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo
O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem
Como se em tudo aflorasse eternidade
Justa é a forma do nosso corpo
[ Sophia de Mello Breyner Andresen ]
20100415
Chamo-Te

Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.
Há muitas coisas que não quero ver.
Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.
[ Sophia de Mello Breyner Andresen ]
Pã
Caminhava fito
TEOLOGIA DO TRASTE

As coisas jogadas fora por motivo de traste
são alvo da minha estima.
Prediletamente latas.
Latas são pessoas léxicas pobres porém concretas.
Se você jogar na terra uma lata por motivo de
traste: mendigos, cozinheiras ou poetas podem pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes, por
exemplo, do que as idéias.
Porque as idéias, sendo objetos concebidos pelo
espírito, elas são abstratas.
E, se você jogar um objeto abstrato na terra por
motivo de traste, ninguém quer pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes.
A gente pega uma lata, enche de areia e sai
puxando pelas ruas moda um caminhão de areia.
E as idéias, por ser um objeto abstrato concebido
pelo espírito, não dá para encher de areia.
Por isso eu acho a lata mais suficiente.
Idéias são a luz do espírito — a gente sabe.
Há idéias luminosas — a gente sabe.
Mas elas inventaram a bomba atômica, a bomba
atômica, a bomba atôm.................................
........................................................... Agora
eu queria que os vermes iluminassem.
Que os trastes iluminassem.
[ manoel de barros ]
20100412
AMÉM

Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Amém.
[ natália correia ]
O SONO

Das cátedras da virtude
Gabaram a Zaratustra um sábio, que sabia falar doutamente do sono e da virtude; diziam que muitos o respeitavam e remuneravam por isso, e que todos os jovens se aglomeravam diante da sua cátedra. Foi ouvi-lo Zaratustra e sentou-se com os jovens diante da sua cátedra. E assim falou o sábio:
“Respeito e pudor diante do sono! Isso em primeiro lugar! E evitar todos os que dormem mal e passam a noite acordados!
Diante do sono, até o ladrão tem pudor: é sempre de mansinho que se retira na noite. Mas despudorado é o guarda-noturno, que traz despudoradamente sua corneta.
Não é uma arte fácil, dormir: faz-se mister, para começar, passar o dia todo acordado.
Dez vezes durante o dia, és obrigado a vencer-te a ti mesmo; isso gera um bom cansaço e é papoula para a alma.
Dez vezes és obrigado a reconciliar-te contigo mesmo; pois é penoso vencer-se a si mesmo e dorme mal o irreconciliado.
Dez verdades cumpre-te achar durante o dia; de outro modo, ainda procuras verdades durante a noite, pois tua alma ficou com fome.
Dez vezes deves, rir, de dia, e estar alegre; do contrário, à noite te incomodará o teu estômago, esse pai das aflições.
Poucos sabem disto: que é preciso ter todas as virtudes, para dormir bem. Direi falso testemunho? Cometerei adultério?
Desejarei a mulher do meu próximo? Nada disso seria compatível com um bom sono.
E, mesmo quando se possuem todas as virtudes, cumpre ainda entender de uma coisa: mandar dormir, a tempo, também as virtudes.
Para que não briguem entre si, essas amáveis mulherzinhas! E a teu respeito, infeliz!
Paz com Deus e o teu próximo: é o que te exige o bom sono. E paz, também, com o demônio do teu próximo. Senão, ele virá incomodar-te durante a noite.
Respeito à autoridade e respeito, também à autoridade cambaia! É o que exige o bom sono. Que culpa tenho eu de que o poder goste de caminhar com pernas tortas!
Sempre, a meu ver, será o melhor pastor aquele levar sua ovelha para o pasto mais verde: isso condiz com o bom sono.
Não quero muitas honras nem, tampouco, grandes tesouros: isso causa inflamação do baço. Mas dorme-se mal sem uma boa reputação e um pequeno tesouro.
Prefiro a companhia de pouca gente à companhia de gente má; mas ela deve vir e ir embora a tempo. Isso condiz com o bom sono.
Muito me agradam, também, os pobres de espírito: conciliam o sono. Bem-aventurados são eles, especialmente se lhes damos sempre razão.
Assim transcorre o dia para o homem virtuoso. Quando, porém, chega a noite, eu bem me guardo de invocar o sono! Não quer ser invocado, o sono, que é o senhor das virtudes!
Mas penso no que fiz e pensei durante o dia. Ruminando, eu me pergunto, paciente como uma vaca: quais foram, afinal, as dez vitórias sobre mim mesmo?
E quais foram as dez reconciliações e as dez verdades e as dez risadas com que se regalou meu coração?
Assim meditando e embalado por quarenta pensamentos, assalta-me, repentinamente, o sono, o não invocado, o senhor das virtudes.
Bate o sono em meus olhos: e eles se tornam pesados. Toca o sono minha boca: e ela fica aberta.
Em verdade, vem a mim na ponta dos pés, o mais amado dos gatunos, e rouba meus pensamentos; e lá fico eu em pé, estúpido como essa cátedra.
Mas, então, não me demoro assim ainda por muito tempo: eis que já estou deitado.” –
Quando ouviu o sábio falar assim, riu-se Zaratustra em seu coração: porque uma luz raiara nele. E assim falou ao seu coração:
“Um louco parece-me este sábio com os seus quarenta pensamentos; mas acho que, realmente, entende de sono.
Feliz quem mora perto deste sábio! Um sono como esse é contagioso, até, através de uma espessa parede.
Há um fascínio mesmo na sua cátedra. E não em vão ficam os discípulos sentados diante do pregador de virtude.
Sua sabedoria reza: ficar acordado para dormir bem. E, na verdade, não tivesse a vida sentido algum e devesse eu escolher um disparate, também para mim esse disparate seria o mais digno de escolha.
Compreendo, agora, claramente, o que outrora se procurava, acima de tudo, quando se procuravam os mestres da virtude. Procurava-se um bom sono e, mais, virtudes com a virtude da papoula.
Para todos esses decantados sábios das cátedras, era a sabedoria um sono sem sonhos; não conheciam nenhum melhor sentido da vida. Ainda há hoje uns quantos deles, iguais a este pregador da virtude e nem sempre tão honestos; mas o seu tempo acabou. E não se demorarão ainda em pé por muito tempo: eis que já estão deitados.
Bem-aventurados são os que têm sono: porque breve adormecerão.” –
Assim falou Zaratustra.
(NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra: Um livro para todos e para ninguém. 9ª Edição, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998).
Das Três Metamorfoses

Isso dissera Zaratustra ao seu coração quando o sol estava no meio-dia; volveu, então, para o alto um olhar indagador – pois ouvia sobre sua cabeça o grito agudo de uma ave. E eis que viu uma águia voando em amplos círculos no ar e dela pendia uma serpente, não como presa, mas como amiga, pois se segurava enrolada em seu pescoço.
“São os meus animais!”, disse Zaratustra, regojizando-se de todo o coração.
“O animal mais altivo debaixo do sol e o animal mais prudente debaixo do sol – saíram em exploração.
Querem saber se Zaratustra ainda está vivo. Em verdade, estou eu ainda vivo?
Encontrei mais perigo entre os homens do que entre os animais, perigosos são os caminho de Zaratustra. Possam guiar-me os meus animais!”
Após dizer isso, lembrou-se Zaratustra das palavras do santo na floresta, suspirou e falou assim ao seu coração:
“Pudesse eu ser mais prudente! Pudesse eu ser prudente por natureza, como a minha serpente!
Mas estou pedindo o impossível; assim peço à minha altivez que acompanhe sempre minha prudência .
E se, algum dia, a minha prudência me abandonar – ah, como gosta de bater asas! –, possa a minha altivez, então, voar ainda assim em companhia da minha loucura!”
Assim começou o ocaso de Zaratustra.
* * *
DAS TRÊS METAMORFOSES
Três metamorfoses, nomeio-vos, do espírito: como o espírito se torna camelo e o camelo, leão e o leão, por fim, criança.
Muitos fardos pesados há para o espírito, o espírito forte, o espírito de suportação, ao qual inere o respeito; cargas pesadas, as mais pesadas, pede a sua força.
“O que há de pesado?”, pergunta o espírito de suportação; e ajoelha como um camelo e quer ficar bem carregado.
“O que há de mais pesado, ó heróis”, pergunta o espírito de suportação, “para que eu o tome sobre mim e minha força se alegre?
Não será isto: humilhar-se, para magoar o próprio orgulho? Fazer brilhar a própria loucura, para escarnecer da própria sabedoria?
Ou será isto: apartar-se da nossa causa, quando ela celebra o seu triunfo?
Subir para altos montes, a fim de tentar o tentador?
Ou será isto: alimentar-se das bolotas e da erva do conhecimento e, por amor à verdade, padecer fome na alma?
Ou será isto: estar enfermo e mandar embora os consoladores e ligar-se de amizade aos surdos, que não ouvem nunca o que queremos?
Ou será isto: entrar na água suja, se for a água da verdade, e não enxotar de si nem as frias rãs nem os ardorosos sapos?
Ou será isto: amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma, quando ele nos quer assustar?”
Todos esses pesadíssimos fardos toma sobre si o espírito de suportação; e, tal como o camelo, que marcha carregado para o deserto, marcha ele para o seu próprio deserto.
Mas, no mais ermo dos desertos, dá-se a segunda metamorfose: ali o espírito torna-se leão, quer conquistar, como presa, a sua liberdade e ser senhor em seu próprio deserto.
Procura, ali, o seu derradeiro senhor: quer tornar-se-lhe inimigo, bem como do seu derradeiro deus, quer lutar para vencer o dragão.
Qual é o grande dragão, ao qual o espírito não quer mais chamar senhor nem deus? “Tu deves” chama-se o grande dragão. Mas o espírito do leão diz: “Eu quero”.
“Tu deves” barra-lhe o caminho, lançando faíscas de ouro; animal de escamas, em cada escama resplende, em letras de ouro, “Tu deves!”
Valores milenários resplendem nessas escamas; e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: “Todo o valor das coisas resplende em mim.
Todo o valor já foi criado e todo o valor criado sou eu. Na verdade, não deve mais haver nenhum ‘Eu quero’!” Assim fala o dragão.
Meus irmãos, para que é preciso o leão, no espírito? Do que já não dá conta suficiente o animal de carga, suportador e respeitador?
Criar novos valores – isso também o leão ainda não pode fazer; mas criar para si a liberdade de novas criações – isso a pujança do leão pode fazer.
Conseguir o direito de criar novos valores – essa é a mais terrível conquista para o espírito de suportação e de respeito. Constitui para ele, na verdade, um ato de rapina e tarefa de animal rapinante.
Como o que há de mais sagrado amava ele, outrora, o “Tu deves”; e, agora, é forçado a encontrar quimera e arbítrio até no que tinha de mais sagrado, a fim de arrebatar a sua própria liberdade ao objeto desse amor: para um tal ato de rapina, precisa-se do leão.
Mas dizei, meus irmãos, que poderá ainda fazer uma criança, que nem sequer pôde o leão? Por que o rapace leão precisa ainda tornar-se criança?
Inocência, é a criança, e esquecimento; um novo começo, um jogo, uma roda que gira por si mesma, um movimento inicial, um sagrado dizer “sim”.
Sim, meus irmãos, para o jogo da criança é preciso dizer um sagrado “sim”: o espírito, agora, quer a sua vontade, aquele que está perdido para o mundo conquista o seu mundo.
Nomeei-vos três metamorfoses do espírito: como o espírito tornou-se camelo e o camelo, leão e o leão, por fim, criança.
Assim falou Zaratustra. E achava-se nesse tempo, na cidade chamada A Vaca Pintalgada.
(NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra: Um livro para todos e para ninguém. 9ª Edição, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998).
20100410
VENTO

Se a gente jogar uma pedra no vento
Ele nem olha para trás.
Se a gente atacar o vento com enxada
Ele nem sai sangue da bunda.
Ele não dói nada.
Vento não tem tripa.
Se a gente enfiar uma faca no vento
Ele nem faz ui.
A gente estudou no Colégio que vento
é o ar em movimento.
E que o ar em movimento é vento.
Eu quis uma vez implantar uma costela
no vento.
A costela não parava nem.
Hoje eu tasquei uma pedra no organismo
do vento.
Depois me ensinaram que vento não tem
organismo.
Fiquei estudado.
[ manoel de barros ]
CANÇÃO DE VER

Por viver muitos anos dentro do mato
moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas por
igual
Como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas
Água não era ainda a palavra água
Pedra não era ainda a palavra pedra;
E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
Podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar às pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em uma abelha, era
Só abrir a palavra abelha e entrar dentro
dela
Como se fosse a infância da língua.
"poemas rupestres" - manoel de barros
20100409
passarinhada

Desde sempre parece que ele fora preposto a pássaro.
Mas não tinha preparatórios de uma árvore
Pra merecer no seu corpo ternuras de gorjeios.
Ninguém de nós, na verdade, tinha força de fonte.
Ninguém era início de nada.
A gente pintava nas pedras a voz.
E o que dava santidade às nossas palavras era
a canção do ver!
Trabalho nobre aliás mas sem explicação
Tal como costurar sem agulha e sem pano.
Na verdade na verdade
Os passarinhos que botavam primavera nas palavras.
[ “POEMAS RUPESTRES” - Manoel de Barros ]
passarinhada

Com aquela sua maneira de sol entrar em casa
E com o seu olhar furado de nascentes
O menino podia ver até a cor das vogais –
Como o poeta Rimbaud viu.
Contou que viu a tarde latejas de andorinhas.
E viu a garça pousada na solidão de uma pedra.
E viu outro lagarto que lambia o lado azul do
silêncio.
Depois o menino achou na beira do rio uma pedra
canora.
Ele gostava de atrelar palavras de rebanhos
diferentes
Só para causar distúrbios no idioma.
Pedra canora causa!
E um passarinho que sonhava de ser ele também
causava.
Mas ele mesmo, o menino
Se ignorava como as pedras se ignoram.
[ "POEMAS RUPESTRES" - Manoel de Barros ]
Do super-homem

PRÓLOGO
Aos trinta anos de idade, deixou Zaratustra sua terra natal e o lago de sua terra natal e foi para a montanha. Gozou ali, durante dez anos, de seu próprio espírito e da solidão, sem deles se cansar. No fim, contudo, seu coração mudou; e, certa manhã, levantou-se ele com a aurora, foi para diante do sol e assim lhe falou:
“Que seria a tua felicidade, ó grande astro, se não tivesses aqueles que iluminas!
São dez anos que sobes à minha caverna; e já se te haveriam tornado enfadonhos a tua luz e este caminho, sem mim, a minha águia e a minha serpente.
Mas nós te esperávamos todas as manhãs, tomávamos de ti o teu supérfluo e por ele ter abençoávamos.
Vê! Aborreci-me da minha sabedoria, como a abelha do mel que ajuntou em excesso; preciso de mãos que para mim se estendam.
Eu desejaria dar e distribuir tanto, que os sábios dentre os homens voltassem a alegrar-se de sua loucura e os pobres, de sua riqueza.
Por isso, é preciso que eu baixe às profundezas, como fazes tu à noite, quando desapareces atrás do mar, levando ainda a luz ao mundo ínfero, ó astro opulento!
Como tu, devo ter meu ocaso, segundo dizem os homens para junto dos quais quero descer.
Abençoa-me, pois, olho tranqüilo, que pode, sem inveja, contemplar uma ventura ainda que demasiado grande!
Abençoa a taça que quer transbordar, a fim de que sua água escorra dourada, levando por toda parte o reflexo de tua bem-aventurança!
Vê! Esta taça quer voltar a esvaziar-se e Zaratustra quer voltar a ser homem.”
Assim começou o acaso de Zaratustra.
II
Zaratustra desceu a montanha sozinho e sem encontrar ninguém. Mas, quando chegou às florestas, deparou repentinamente com um velho, que deixara a sua sagrada choupana para ir à procura de raízes no mato. E assim falou o velho a Zaratustra:
“Não me é desconhecido , este viandante; passou por aqui há muitos anos. Chamava-se Zaratustra; mas está mudado.
Naquele tempo, levavas a tua cinza para o monte; queres, hoje, trazer o fogo para o vale? Não receias as penas contra os incendiários?
Sim, reconheço Zaratustra. Puro é seu olhar e não há em sua boca nenhum laivo de náusea. Não será por isso que caminha como um dançarino?
Mudado está Zaratustra, tornou-se uma criança, Zaratustra, despertou, Zaratustra; que pretendes, agora, entre os que dormem?
Vivias na solidão como num mar e o mar te transportava. Ai de ti, queres ir a terra? Ai de ti, queres novamente arrastar tu mesmo o teu corpo?”
Zaratustra respondeu: “Amo os homens”
“E por que foi, então”, disse o santo, “que me recolhi à floresta e ao ermo? Não foi porque amei demais os homens?
Agora, amo Deus, não amo os homens. Coisa por demais imperfeita é, para mim, o ser humano. O amor aos homens me mataria.”
Zaratustra respondeu: “Por que fui falar de amor! Trago aos homens um presente.”
“Não lhes dês nada”, disse o santo. “Tira-lhes, de preferência, alguma coisa de cima e ajuda-os a levá-la; será o que de melhor poderás fazer por eles, se for bom para ti.
E, se queres dar-lhes alguma coisa, que não seja mais do que uma esmola; e, mesmo assim, só depois que a mendiguem.”
“Não”, respondeu Zaratustra, “eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso.”
Riu o santo de Zaratustra e falou assim: “Trata, então, de que aceitem os teus tesouros! Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que os procuremos para presenteá-los.
Por demais desacompanhados, para eles, ecoam nossos passos nas ruas. E, quando, à noite, em suas camas, ouvem alguém caminhar muito antes que o sol desponte, perguntam a si mesmos: ‘Aonde irá esse ladrão?’
Não vás para junto dos homens, e fica na floresta! Vai ter, antes, com os animais! Por que não queres ser como eu – um urso entre os ursos, um pássaro entre os pássaros?”
“E o que faz um santo na floresta?”, indagou Zaratustra.
O santo respondeu: “Faço canções e as canto; e, quando faço canções, rio, choro e falo de mim para mim: assim louvo a Deus.
Cantando, chorando, rindo e falando de mim para mim, louvo o Deus que é o meu Deus. Mas tu, que nos trazes de presente?”
Ao ouvir essas palavras, despediu-se Zaratustra do santo, dizendo: “Que teria eu para dar-vos? Mas deixai-me ir embora depressa, antes que vos tire alguma coisa!” E assim se separaram, o velho e o homem, rindo como dois meninos.
Mas, quando ficou só, Zaratustra falou assim ao seu próprio coração: “Será possível? Esse velho santo, em sua floresta, ainda não soube que Deus está morto.“
III
Ao chegar à cidade mais próxima, encontrou Zaratustra grande quantidade de povo reunido na praça do mercado; pois lhes fora prometido que iriam ver um funâmbulo. E Zaratustra assim falou ao povo: “Eu vos ensino o super-homem. O homem é algo que deve ser superado. Que fizestes para superá-lo?
Todos os seres, até agora, criaram algo acima de si mesmos; e vós quereis ser a baixa-mar dessa grande maré cheia e retrogradar ao animal, em vez de superar o homem?
Que é o macaco para o homem? Um motivo de riso ou de dolorosa vergonha. E é justamente isso que o homem deverá ser para o super-homem: um motivo de riso ou de dolorosa vergonha.
Percorrestes o caminho que vai do verme ao homem, mas ainda tendes muito do verme. Fostes macacos, um tempo, e, também agora, o homem é ainda mais macaco do que qualquer macaco.
Mas o mais sábio dentro vós não passa de uma discrepância e de um híbrido de planta e fantasma. Mas vos mando eu, porventura, tornar-vos fantasmas ou plantas?
Vede, eu vos ensino o super-homem!
O super-homem é o sentido da terra. Fazei a vossa vontade dizer: ‘Que o super-homem seja o sentido da terra!’
Eu vos rogo, meus irmãos, permaneceis fiéis a terra e não acrediteis nos que vos falam de esperanças ultraterrenas! Envenenadores, são eles, que o saibam ou não.
Desprezadores da vida, são eles, e moribundos, envenenados por seu próprio veneno, dos quais a terra está cansada; que desapareçam, pois, de uma vez!
Outrora, o delito contra Deus era o maior dos delitos; mas Deus morreu e, assim, morreram também os delinqüentes dessa espécie. O mais terrível, agora, é delinqüir contra a terra e atribuir mais valor às entranhas do imperscrutável do que ao sentido da terra!
Outrora, a alma olhava desdenhosamente o corpo; e esse desdém era o que havia de mais elevado; - queria-o magro; horrível, faminto. Pensava, assim, escapar-se dele e da terra.
Oh, essa alma era, ela mesma, ainda magra, horrível e faminta; e a crueldade era sua volúpia!
Mas também ainda vós, meus irmãos, dizei-me: que vos informa vosso corpo a respeito de vossa alma? Não é ela miséria, sujeira e mesquinha satisfação?
Em verdade, um rio imundo, é o homem. E é realmente preciso ser um mar, para absorver, sem sujar-se, um rio imundo.
Vede, eu vos ensino o super-homem: é ele o mar onde pode submergir o vosso grande desprezo.
Que podeis experimentar de mais excelso? A hora do grande desprezo. A hora em que também vossa felicidade se converte em náusea, do mesmo modo que a vossa razão e a vossa virtude.
A hora em dizeis: ‘Que me importa a minha felicidade! Não passa de miséria, sujeira e mesquinha satisfação. Mas, justamente, é a minha felicidade que deveria justificar minha existência!
A hora em que dizeis: ‘Que me importa a minha razão! Acaso cobiça ela o saber, como o leão seu alimento? Não passa de miséria, sujeira e mesquinha satisfação!
A hora em que dizeis: ‘Que me importa a minha virtude! Ainda não me fez delirar. Como estou farto daquilo que, para mim, é o bem e o mal! Tudo isso não passa de miséria, sujeira e mesquinha satisfação!
A hora em que dizeis: ‘Que me importa minha justiça! Não vejo que por ela eu me tornasse carvão em brasa. Mas o justo torna-se carvão em brasa!
A hora em que dizeis: ‘Que me importa a minha compaixão! Não é a compaixão a cruz na qual se prega aquele que ama os homens? Mas a minha compaixão não é crucificação.”
Já falastes assim? Já gritastes assim? Ah, se eu vos tivesse ouvido, algum dia, gritar assim!
Não o vosso pecado, a vossa moderação brada ao céus, a vossa avareza até no pecado brada aos céus!
Onde está o raio que vos lambe com sua língua? Onde, a loucura com que deveríeis ser vacinados?
Vede, eu vos ensino o super-homem: porque é ele esse raio e essa loucura! – ”
Depois que Zaratustra assim falou, alguém no meio do povo gritou: “Já basta de ouvirmos falar do funâmbulo; agora, queremos também vê-lo” e o povo todo riu-se de Zaratustra. Mas o funâmbulo, julgando que o discurso se houvesse referido a ele, preparou-se para o seu trabalho.
[ "Assim Falou Zaratustra" - Friedrich Nietzsche ]
20100408
Rosai por nós
O Tempo Certo Para um Pic-Nic

Trecho do Livro de Thich Nhat Hanh "Peace Begins Here: Palestinians and
Israelis Listening to Each Other" publicado pela Parallax Press.
Tradução Samuel Cavalcante
"Era uma vez um professor que vivia com seus estudantes em um templo. Um dia um estudante perguntou ' querido professor, vamos fazer um pc-nic um dias desses?'. O professor respondeu 'Sim, vamos achar um dia para fazermos um pic-nic'. Mas eles eram muito ocupados, nunca acharam esse dia. Um ano passou, depois dois, três e mesmo assim não conseguiram fazer um pic-nic. Um dia, enquanto caminhavam juntos pela cidade, eles viram um funeral passando. O professor perguntou ao seu aluno 'O que é isso?'. O estudante disse 'Eles estão indo fazer um pic-nic. O único pic-nic que eles conseguem fazer é quando eles morrem' ".
Eu vivi durante duas guerras do Vietnã e sei o que é a guerra - você nunca sabe se estará vivo esta tarde ou à noite. Existe medo, raiva e desespero. Se você não conseguir lidar com essas coisas, não conseguirá sobreviver. É por isso que a nossa prática é fazer um pic-nic aqui e agora, sem esperar. É possível para os israelenses e palestinos fazerem um pic-nic para que todos possam aproveitar cada momento? Acho que sim.
O pic-nic pode estar acontecendo agora mesmo, neste exato momento. Uma bomba pode explodir hoje, mas, mesmo assim, faremos nosso pic-nic. Estamos todos juntos sentados aqui. Não há nada a fazer. Apenas sentir o prazer de estarmos sentados, sem preocupação - por que sentar-se é um prazer. Ouvir alguém falar também é um prazer. Não precisamos aprender nada, passar em nenhuma prova ou ter diploma. Apenas sentamos e aproveitamos a inspiração e a expiração, ouvindo alguém falando sobe paz. Não é minha intenção dar a ninguém idéias sobre a paz; vocês já estão cheios de idéias. Nossa intenção é sermos paz, aqui, nesse presente instante.
Frequentemente, nossos corpos não estão em paz. Podemos aprender a trazer paz para o nosso corpo, aqui e agora. Ele sofre, especialmente durante os tempos de guerra. Sentimos tensão, stress e pressão. Tratamos nosso corpo de maneira bastante dura e ele está cheio de conflitos. O modo como o tratamos o faz sofrer tanto que acabamos não tendo paz. Para trazer a paz pros nossos corpos, permitimos a eles descansar para que possam ter uma chance de se renovar e curar a si mesmos. Podemos fazer isso agora mesmo. Depois de uma ou duas horas, sentiremo-nos muito melhor. Não estamos apenas falando sobre a paz do corpo, estamos trazendo realmente a paz para dentro dele.
Todos nós temos sentimentos de tristeza, dor ou excitação. Nossos sentimentos fluem através de nós como um rio e frequentemente nos dominam. Estando juntos com nossos amigos que sabem como lidar com seus sentimentos e emoções, poderemos aprender também a lidar com os nossos. Em quinze minutos de respiração consciente consciente, podemos começar a saber como lidar com o nosso medo, desespero e raiva; isto é muito importante. Se você não souber lidar com seu corpo e com seus sentimentos de raiva, medo e desespero, você não poderá falar de paz. Lidar bem com eles trará paz e harmonia ao seu corpo, sentimentos e emoções.
Quando estamos dominados, não percebemos as coisas como elas são; desenvolvemos percepções erradas sobre quem somos nós, quem são os outros e sobre como é o mundo. Estas percepções erradas são a base de todas as nossas ações que trazem infelicidade, destruição, medo e raiva. Precisamos ser capazes de lidar com nossas percepções, para que possamos saber quais percepções são corretas e quais incorretas. A maior parte do nosso sofrimento advém de nossas percepções erradas. Precisamos dedicar um tempo para observar profundamente a natureza de nossas percepções para que não sejamos apanhados por elas, pois são a base de todos os nossos sentimentos, emoções e aflições.
Na vida cotidiana, poucas vezes estamos conscientes de nossos sentimentos, percepções e pensamentos. Raramente somos realmente nós mesmos. Frequentemente, somos vítimas de nossos sentimentos e percepções; somos como uma folha flutuando no oceano, com as ondas nos puxando pra lá e pra cá. Não somos soberanos de nossa própria situação. É por isso que é tão importante voltar ao o nosso lar, a nós mesmos. Dessa maneira, deixamos de ser dominados pela circunstâncias. Esta é a prática básica da paz. Se tivermos alguma paz em nosso corpo, em nossas emoções e em nossas percepções poderemos ajudar outras pessoas a encontrar a paz. Mas temos que começar por nós mesmos. Você não poderá ser um instrumento de paz se não tiver paz em si mesmo. Quando você se tornar esse instrumento, também se tornará um instrumento de Deus, de Allah, do Buda e da realidade última. Isso não é tão difícil. Podemos fazê-lo.
Encontrando Refúgio
Algumas vezes, nos sentimos muito cansados, não temos mais energia e queremos desistir - nossa situação é bastante difícil. Sentimo-nos como se não pudéssemos fazer mais nada. Queremos achar um lugar onde possamos estar protegidos e tomar refúgio em Deus, em Buda ou em Allah. Imagine uma onda que se cansou de subir e descer, pra cima e pra baixo, e que gostaria de buscar refúgio. Existe um refúgio para a onda, que é a água. Se a onda reconhecer que ela é a água e buscar nela o seu refúgio, não terá mais medo de subir e descer. É muito importante que ela saiba que é água e que não precisa buscar a água fora de si mesma.
Talvez você seja uma onda, cansado de subir e descer, de nascer e morrer. Você está procurando algo sólido, seguro e duradouro no qual se refugiar. Se você for uma onda, não precisa buscar pela água. Você é a água, aqui e agora. Deus não existe fora de nós. O absoluto, nosso refúgio, não está fora de nós, está bem aqui, dentro de nós. "Eu descanso em Deus" significa '' Eu tomo refúgio no absoluto". Podemos chamar o absoluto de natureza de Buda, Deus ou Allah; é tudo a mesma coisa.
Quando você descansa em Deus, você não precisa correr, apenas volta ao seu lar, você mesmo, como a onda na água. Se a onda continuar procurando, ela jamais encontrará a água. A única maneira de encontrá-la é voltar à casa de si mesma. Quando ela percebe que é água, encontra a paz. Ela pratica o descanso em Deus aqui e agora. Mesmo que ela continue a subir e descer, está pacificada. Podemos praticar assim - Deus, não como uma entidade separada de nós, mas como o fundamento de nosso ser.
Muitos de nós estamos presos ao ato de se tomar refúgio em uma noção. Pensamos que estamos tomando refúgio no Buda, mas tomamos refúgio em nossa noção de Buda. Pensamos que estamos tomando refúgio em Allah, mas Allah é apenas uma noção na nossa cabeça. É por isso que queremos aqui tomar refúgio no momento presente, na nossa inspiração, na nossa expiração, nos nossos passos. Estas são maneiras muito concretas de tomar refúgio. Inspirando, tomo refúgio na minha inspiração. Sou completamente minha inspiração. Confio na minha inspiração e, junto com ela, eu me torno a paz. Expirando, tomo refúgio na minha expiração, eu me torno minha expiração. Confio em minha expiração e me torno a paz com ela.
* * *
As Seis Perfeições

Estudos Budistas
Tradição do Ven. Thich Nhat Hanh
As Seis Perfeições (Paramitas) – parte 1
As seis paramitas são ensinamentos do Budismo Mahayana. Paramita é uma palavra que pode ser traduzida como "perfeição" ou "realização perfeita". O ideograma chinês para este termo significa "atravessar para a outra margem", que é a margem da coragem, da paz e da libertação. As perfeições devem ser praticadas em nossa vida diária. Estamos atualmente na margem do sofrimento, da raiva e da depressão, e queremos atravessar para a margem do bem-estar. Para atravessar, é preciso fazer alguma coisa, e é a isso que chamamos de perfeição. Assim, voltamos para nós mesmos, praticamos a respiração consciente e olhando nosso sofrimento, nossa raiva, nossa depressão, e sorrimos. Ao fazer isso, superamos a dor e atravessamos. Devemos praticar as "perfeições" todos os dias.
Todas as vezes que damos um passo consciente, temos a oportunidade de sair da terra da tristeza para a terra da alegria. A Terra Pura está disponível aqui e agora. O Reino de Deus é uma semente dentro de nós. Se soubermos plantar essa semente em um bom solo, ela se tornará uma árvore, onde os pássaros virão se refugiar. Pratiquem a travessia para a outra margem sempre que sentirem necessidade. O Buda disse: "Não fique esperando que a outra margem venha até você. Se quiser atravessar para chegar à margem da segurança, do bem-estar, da coragem e da ausência de raiva, terá que nadar ou remar. Você precisa fazer um esforço." Esse esforço é a prática das Seis Perfeições.
(1) Dana paramita - Doação, generosidade, oferta.
(2) Shila paramita - Os preceitos ou treinamentos da atenção plena.
(3) Kshanti paramita - Tolerância, a capacidade de acolher, suportar e transformar a dor infligida a você por seus inimigos e também pelas pessoas que o amam.
(4) Virya pammita - O esforço, energia, perseverança.
(5) Dhyana paramita - A meditação.
(6) Prajna paramita - A sabedoria, compreensão, insight.
Praticar as seis perfeições ajuda a atingir a outra margem - a margem da liberdade, da harmonia e dos bons relacionamentos.
A primeira prática da travessia é a perfeição da generosidade (a dana paramita). Dar significa, primeiro, oferecer alegria, felicidade e amor. Existe uma planta, muito conhecida na Ásia - um membro da família das cebolas, que fica deliciosa nas sopas, no arroz frito e nos omeletes - que a cada vez que a cortamos torna a crescer em vinte e quatro horas. E quanto mais se corta essa planta, maior e mais forte ela cresce. A planta representa a dana paramita. Não guardamos nada para nós. Apenas queremos dar. Talvez a outra pessoa se sinta feliz com isso, mas com certeza os maiores beneficiados seremos nós mesmos. Em diversas histórias sobre as vidas passadas de Buda, nós o encontramos praticando a perfeição da generosidade.
A maior dádiva que podemos dar a alguém é nossa presença verdadeira. Um menino que conheço ouviu de seu pai: "O que você quer de aniversário?" O menino hesitou. O pai era rico e podia lhe dar o que pedisse. Mas passava tanto tempo ganhando dinheiro que quase nunca estava com a família. Por isso, o menino respondeu: "Pai, eu quero você!" A mensagem era clara. Se amamos alguém, temos que ofertar nossa presença verdadeira a essa pessoa. Quando damos esse presente, recebemos ao mesmo tempo o presente da alegria. Aprenda a oferecer sua presença verdadeira através da meditação. Inspirando conscientemente, promova a união do corpo e da mente. "Querido, estou aqui para você" é um mantra a ser repetido quando praticar essa perfeição.
O que mais podemos oferecer? Nossa estabilidade. "Inspirando, eu sou uma montanha. Expirando, eu me sinto firme." A pessoa que amamos necessita de que sejamos firmes e estáveis. Podemos cultivar nossa estabilidade através da inspiração e da expiração, da caminhada com atenção plena, da meditação sentada, e também gostando de viver profundamente cada momento. A firmeza é uma das características do Nirvana.
O que mais podemos oferecer? Nossa liberdade. A felicidade não é possível, a menos que estejamos livres de aflições tais como desejo, raiva, ciúme, medo, ou percepções errôneas. A liberdade é uma das características do Nirvana. Alguns tipos de felicidade são realmente destrutivos para o corpo, a mente e os relacionamentos. Estar livre de desejos é uma prática importante. Contemple profundamente a natureza daquilo que você acha que vai lhe proporcionar felicidade e pense se, de fato, isso pode implicar sofrimento para aqueles que ama. É preciso ter certeza disso se queremos ser realmente livres. Volte-se para o momento presente, e desfrute as maravilhas da vida que estão disponíveis. Existem tantas coisas saudáveis capazes de nos proporcionar felicidade, como por exemplo um lindo nascer do sol, o céu azul, montanhas, rios, e os rostos felizes das pessoas que nos cercam.
O que mais podemos oferecer? Nosso frescor. "Inspirando, eu me vejo como uma flor. Expirando, eu me sinto com o frescor." Podemos inspirar e expirar três vezes para restaurar a flor dentro de nós. É um grande presente!
O que mais podemos oferecer? Paz. É maravilhoso sentar-se ao lado de alguém que esteja em paz. Nós nos beneficiamos com a sua paz. "Inspirando, eu sou a água calma. Expirando, reflito as coisas como elas são." Podemos oferecer nossa paz e nossa lucidez para aqueles que amamos.
O que mais podemos oferecer? Espaço. A pessoa amada precisa de espaço para ser feliz. Em um arranjo de flores, cada flor precisa de espaço ao seu redor para poder irradiar sua verdadeira beleza. As pessoas são como flores. Sem espaço interno e externo elas não podem ser felizes. Não podemos comprar este tipo de presente na loja. Temos que produzi-lo através da prática. E quanto mais dermos, mais teremos. Quando a pessoa que amamos está feliz, esta felicidade retoma para nós imediatamente. Nós damos algo a essa pessoa, mas na verdade estamos dando a nós mesmos.
Dar é uma prática maravilhosa. O Buda disse que quando se está zangado com alguém, a ponto de tentar de tudo e ainda continuar zangado, devemos praticar a perfeição da generosidade. Quando estamos com raiva, nossa tendência é punir a outra pessoa. Mas ao fazer isso só aumentamos nosso sofrimento. O Buda propôs que, em vez disso, mandássemos um presente para a pessoa que é motivo de nossa raiva. Quando estamos com muita raiva, não temos a menor vontade de sair e comprar um presente, por isso temos que preparar esse presente enquanto não estamos zangados. A seguir, quando tudo o mais falhar, devemos sair e enviar o presente para a pessoa. Constataremos, para nosso espanto, que logo estamos nos sentindo melhor. A mesma coisa é verdade no caso dos países. Para que Israel tenha paz e. segurança, os israelenses precisam achar formas de assegurar a paz e a segurança dos palestinos. E para que os palestinos tenham paz e segurança, eles também precisam encontrar maneiras de assegurar a paz e a segurança dos israelenses. Você recebe aquilo que dá. Em vez de tentar punir a outra pessoa, ofereça exatamente aquilo de que a pessoa necessita. A prática da doação pode conduzir rapidamente ao bem-estar.
Quando alguém nos faz sofrer, é porque essa pessoa sofre profundamente dentro de si mesma, e seu sofrimento está se esparramando do lado de fora. Esta pessoa não precisa de mais sofrimento, precisa de ajuda. Essa é a mensagem que está sendo enviada. Se você conseguir entender isso, ofereça o que a pessoa precisa - alívio. Felicidade e segurança não são questões individuais. A felicidade e a segurança do outro são fundamentais para a sua felicidade e a sua segurança. Deseje o bem do outro com sinceridade, para que você também fique bem.
O que mais podemos oferecer? Compreensão. A compreensão é a flor da prática. Focalize sua atenção concentrada em um objeto, observe profundamente o objeto, e você terá insight e compreensão. Ao oferecer compreensão aos outros, eles deixarão imediatamente de sofrer.
A primeira pétala da flor das perfeições é a prática da generosidade. Recebemos aquilo que damos, muito mais depressa do que os sinais enviados por satélite. Quer você dê sua presença, sua estabilidade, seu frescor, sua firmeza, sua liberdade, ou sua compreensão, sua dádiva fará milagres. A generosidade é a prática do amor.
A segunda prática é o aperfeiçoamento dos preceitos, ou treinamentos da atenção plena. Os Cinco Treinamentos da Atenção Plena ajudam a proteger o corpo, a mente, a família e a sociedade. O Primeiro Treinamento da Atenção Plena versa sobre proteger as vidas dos seres humanos, animais, vegetais e minerais. Proteger outros seres significa proteger a nós mesmos. O segundo treinamento versa sobre impedir a exploração de seres humanos, de outros seres vivos e da natureza. Relaciona-se com a prática da generosidade. O terceiro tem a ver com proteger crianças e adultos do abuso sexual, e preservar a felicidade dos indivíduos e das famílias. Muitas famílias já foram separadas devido à má conduta sexual. Quando praticamos o Terceiro Treinamento da Atenção Plena, protegemos a nós mesmos, as famílias e os casais, porque ajudamos os outros a se sentirem seguros. O Quarto Treinamento da Atenção Plena versa sobre praticar a fala amorosa e a escuta atenciosa. O Quinto Treinamento da Atenção Plena é sobre consumir de maneira consciente.
A prática dos Cinco Treinamentos da Atenção Plena é uma forma de amor e de doação. Assegura a boa saúde e a proteção da nossa família e da sociedade. Shila paramita é uma grande dádiva que oferecemos à sociedade, à família e àqueles a quem amamos. A maior dádiva que podemos ofertar aos outros é praticar os Cinco Treinamentos da Atenção Plena. Se vivermos de acordo com eles, estaremos protegendo a nós mesmos e as pessoas que amamos. Quando praticamos shila paramita, oferecemos o precioso presente da vida.
Vamos contemplar juntos as causas de nosso sofrimento, seja ele individual ou coletivo. Se fizermos isso, veremos que os Cinco Treinamentos da Atenção Plena são o remédio necessário para a doença de nossa época. Todas as tradições têm o equivalente aos Cinco Treinamentos da Atenção Plena. Cada vez que vejo alguém receber e praticar os Cinco Treinamentos da Atenção Plena, fico feliz - pela pessoa, por sua família e por mim mesmo - porque sei que essa é a forma mais objetiva possível de se ter consciência de tudo o que ocorre. Precisamos de uma Sangha ao nosso redor para poder praticar com profundidade.
(Do livro “A essência dos ensinamentos de Buda” – Thich Nhat Hanh)
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