20100409

Do super-homem








PRÓLOGO




Aos trinta anos de idade, deixou Zaratustra sua terra natal e o lago de sua terra natal e foi para a montanha. Gozou ali, durante dez anos, de seu próprio espírito e da solidão, sem deles se cansar. No fim, contudo, seu coração mudou; e, certa manhã, levantou-se ele com a aurora, foi para diante do sol e assim lhe falou:

“Que seria a tua felicidade, ó grande astro, se não tivesses aqueles que iluminas!
São dez anos que sobes à minha caverna; e já se te haveriam tornado enfadonhos a tua luz e este caminho, sem mim, a minha águia e a minha serpente.
Mas nós te esperávamos todas as manhãs, tomávamos de ti o teu supérfluo e por ele ter abençoávamos.
Vê! Aborreci-me da minha sabedoria, como a abelha do mel que ajuntou em excesso; preciso de mãos que para mim se estendam.
Eu desejaria dar e distribuir tanto, que os sábios dentre os homens voltassem a alegrar-se de sua loucura e os pobres, de sua riqueza.
Por isso, é preciso que eu baixe às profundezas, como fazes tu à noite, quando desapareces atrás do mar, levando ainda a luz ao mundo ínfero, ó astro opulento!
Como tu, devo ter meu ocaso, segundo dizem os homens para junto dos quais quero descer.
Abençoa-me, pois, olho tranqüilo, que pode, sem inveja, contemplar uma ventura ainda que demasiado grande!
Abençoa a taça que quer transbordar, a fim de que sua água escorra dourada, levando por toda parte o reflexo de tua bem-aventurança!
Vê! Esta taça quer voltar a esvaziar-se e Zaratustra quer voltar a ser homem.”


Assim começou o acaso de Zaratustra.






II


Zaratustra desceu a montanha sozinho e sem encontrar ninguém. Mas, quando chegou às florestas, deparou repentinamente com um velho, que deixara a sua sagrada choupana para ir à procura de raízes no mato. E assim falou o velho a Zaratustra:

“Não me é desconhecido , este viandante; passou por aqui há muitos anos. Chamava-se Zaratustra; mas está mudado.
Naquele tempo, levavas a tua cinza para o monte; queres, hoje, trazer o fogo para o vale? Não receias as penas contra os incendiários?
Sim, reconheço Zaratustra. Puro é seu olhar e não há em sua boca nenhum laivo de náusea. Não será por isso que caminha como um dançarino?

Mudado está Zaratustra, tornou-se uma criança, Zaratustra, despertou, Zaratustra; que pretendes, agora, entre os que dormem?
Vivias na solidão como num mar e o mar te transportava. Ai de ti, queres ir a terra? Ai de ti, queres novamente arrastar tu mesmo o teu corpo?”
Zaratustra respondeu: “Amo os homens”
“E por que foi, então”, disse o santo, “que me recolhi à floresta e ao ermo? Não foi porque amei demais os homens?
Agora, amo Deus, não amo os homens. Coisa por demais imperfeita é, para mim, o ser humano. O amor aos homens me mataria.”
Zaratustra respondeu: “Por que fui falar de amor! Trago aos homens um presente.”
“Não lhes dês nada”, disse o santo. “Tira-lhes, de preferência, alguma coisa de cima e ajuda-os a levá-la; será o que de melhor poderás fazer por eles, se for bom para ti.
E, se queres dar-lhes alguma coisa, que não seja mais do que uma esmola; e, mesmo assim, só depois que a mendiguem.”
“Não”, respondeu Zaratustra, “eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso.”
Riu o santo de Zaratustra e falou assim: “Trata, então, de que aceitem os teus tesouros! Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que os procuremos para presenteá-los.
Por demais desacompanhados, para eles, ecoam nossos passos nas ruas. E, quando, à noite, em suas camas, ouvem alguém caminhar muito antes que o sol desponte, perguntam a si mesmos: ‘Aonde irá esse ladrão?’
Não vás para junto dos homens, e fica na floresta! Vai ter, antes, com os animais! Por que não queres ser como eu – um urso entre os ursos, um pássaro entre os pássaros?”
“E o que faz um santo na floresta?”, indagou Zaratustra.
O santo respondeu: “Faço canções e as canto; e, quando faço canções, rio, choro e falo de mim para mim: assim louvo a Deus.
Cantando, chorando, rindo e falando de mim para mim, louvo o Deus que é o meu Deus. Mas tu, que nos trazes de presente?”
Ao ouvir essas palavras, despediu-se Zaratustra do santo, dizendo: “Que teria eu para dar-vos? Mas deixai-me ir embora depressa, antes que vos tire alguma coisa!” E assim se separaram, o velho e o homem, rindo como dois meninos.
Mas, quando ficou só, Zaratustra falou assim ao seu próprio coração: “Será possível? Esse velho santo, em sua floresta, ainda não soube que Deus está morto.“


III

Ao chegar à cidade mais próxima, encontrou Zaratustra grande quantidade de povo reunido na praça do mercado; pois lhes fora prometido que iriam ver um funâmbulo. E Zaratustra assim falou ao povo: “Eu vos ensino o super-homem. O homem é algo que deve ser superado. Que fizestes para superá-lo?
Todos os seres, até agora, criaram algo acima de si mesmos; e vós quereis ser a baixa-mar dessa grande maré cheia e retrogradar ao animal, em vez de superar o homem?
Que é o macaco para o homem? Um motivo de riso ou de dolorosa vergonha. E é justamente isso que o homem deverá ser para o super-homem: um motivo de riso ou de dolorosa vergonha.
Percorrestes o caminho que vai do verme ao homem, mas ainda tendes muito do verme. Fostes macacos, um tempo, e, também agora, o homem é ainda mais macaco do que qualquer macaco.
Mas o mais sábio dentro vós não passa de uma discrepância e de um híbrido de planta e fantasma. Mas vos mando eu, porventura, tornar-vos fantasmas ou plantas?
Vede, eu vos ensino o super-homem!
O super-homem é o sentido da terra. Fazei a vossa vontade dizer: ‘Que o super-homem seja o sentido da terra!’
Eu vos rogo, meus irmãos, permaneceis fiéis a terra e não acrediteis nos que vos falam de esperanças ultraterrenas! Envenenadores, são eles, que o saibam ou não.
Desprezadores da vida, são eles, e moribundos, envenenados por seu próprio veneno, dos quais a terra está cansada; que desapareçam, pois, de uma vez!
Outrora, o delito contra Deus era o maior dos delitos; mas Deus morreu e, assim, morreram também os delinqüentes dessa espécie. O mais terrível, agora, é delinqüir contra a terra e atribuir mais valor às entranhas do imperscrutável do que ao sentido da terra!
Outrora, a alma olhava desdenhosamente o corpo; e esse desdém era o que havia de mais elevado; - queria-o magro; horrível, faminto. Pensava, assim, escapar-se dele e da terra.
Oh, essa alma era, ela mesma, ainda magra, horrível e faminta; e a crueldade era sua volúpia!
Mas também ainda vós, meus irmãos, dizei-me: que vos informa vosso corpo a respeito de vossa alma? Não é ela miséria, sujeira e mesquinha satisfação?
Em verdade, um rio imundo, é o homem. E é realmente preciso ser um mar, para absorver, sem sujar-se, um rio imundo.
Vede, eu vos ensino o super-homem: é ele o mar onde pode submergir o vosso grande desprezo.
Que podeis experimentar de mais excelso? A hora do grande desprezo. A hora em que também vossa felicidade se converte em náusea, do mesmo modo que a vossa razão e a vossa virtude.
A hora em dizeis: ‘Que me importa a minha felicidade! Não passa de miséria, sujeira e mesquinha satisfação. Mas, justamente, é a minha felicidade que deveria justificar minha existência!
A hora em que dizeis: ‘Que me importa a minha razão! Acaso cobiça ela o saber, como o leão seu alimento? Não passa de miséria, sujeira e mesquinha satisfação!
A hora em que dizeis: ‘Que me importa a minha virtude! Ainda não me fez delirar. Como estou farto daquilo que, para mim, é o bem e o mal! Tudo isso não passa de miséria, sujeira e mesquinha satisfação!
A hora em que dizeis: ‘Que me importa minha justiça! Não vejo que por ela eu me tornasse carvão em brasa. Mas o justo torna-se carvão em brasa!
A hora em que dizeis: ‘Que me importa a minha compaixão! Não é a compaixão a cruz na qual se prega aquele que ama os homens? Mas a minha compaixão não é crucificação.”

Já falastes assim? Já gritastes assim? Ah, se eu vos tivesse ouvido, algum dia, gritar assim!
Não o vosso pecado, a vossa moderação brada ao céus, a vossa avareza até no pecado brada aos céus!
Onde está o raio que vos lambe com sua língua? Onde, a loucura com que deveríeis ser vacinados?
Vede, eu vos ensino o super-homem: porque é ele esse raio e essa loucura! – ”

Depois que Zaratustra assim falou, alguém no meio do povo gritou: “Já basta de ouvirmos falar do funâmbulo; agora, queremos também vê-lo” e o povo todo riu-se de Zaratustra. Mas o funâmbulo, julgando que o discurso se houvesse referido a ele, preparou-se para o seu trabalho.



[ "Assim Falou Zaratustra" - Friedrich Nietzsche ]

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