20100428

O Canto de Dança








Certo dia, à noitinha, caminhava Zaratustra no bosque com seus discípulos; e, ao procurar uma fonte, eis que chegou a um verde prado, circundado de silenciosas árvores e moitas; nele, algumas jovens dançavam umas com as outras. Assim que as jovens reconheceram Zaratustra, interromperam a dança; Zaratustra, porém, delas se aproximou, com gestos amigáveis, e falou-lhes estas palavras:

“Não pareis de dançar, amáveis jovens! Não é um desmancha-prazares de mau-olhado, que aqui chegou, nem um inimigo dos jovens.

Intercessor de Deus sou eu junto ao Diabo: mas este é o espírito da gravidade. Como poderia eu ser inimigo da vossa graciosa, divina dança? Ou de pés de jovens com lindos tornozelos?

Eu sou uma floresta, sem dúvida, e uma noite de árvores escuras; mas quem não teme minha escuridão, encontra também roseirais, debaixo dos meus ciprestes.

E encontra, também, o pequeno deus que é o preferido dos jovens: está deitado junto da fonte, em silêncio, de olhos fechados.

Em verdade, adormeceu em pleno dia, o preguiçoso! Terá andado demais caçando borboletas?

Não vos zangueis comigo, lindas dançarinas, de eu que castigue um pouco o pequeno deus! Gritará, certamente, e chorará – mas dá vontade de rir, ainda quando chora!

E, com lágrimas nos olhos, deverá pedir-vos uma dança; e eu mesmo quero acompanhar a sua dança com um canto.

Um canto de dança e de mofa ao espírito da gravidade, ao meu altíssimo e poderosíssimo diabo, do qual dizem que é ‘o senhor do mundo’.” –

E este é o canto que Zaratustra entoou, enquanto Cupido e as jovens dançavam juntos.




Em teus olhos olhei, recentemente, ó vida! E pareceu-me, então, que me afundava no imperscrutável.

Mas tiraste-me para fora com um anzol de ouro; e riste, zombeteira, quando te chamei imperscrutável.

“Assim falam todos os peixes” , disseste; “aquilo que eles não perscrutam é imperscrutável.

Mas eu sou apenas mutável e selvagem e, em tudo, mulher, e não precisamente uma mulher virtuosa.

Muito embora vós, homens, me chameis ‘a profunda’, ‘a fiel’, ‘a eterna’, ‘a misteriosa’.

Mas vós, homens, nos presenteais sempre com vossas próprias virtudes – ai de mim, ó virtuosos!”


Assim ela ria, a enganadora; mas eu nunca acredito nela e em seu riso, quando fala mal de si mesma.

E, quando conversei a sós com a minha selvagem sabedoria, disse-me esta, zangada: “Tu queres, desejas, amas ; e somente por isso louvas a vida!”

Quase lhe respondi mal e disse a verdade àquela zangada; e nunca podemos responder pior do que quando “dizemos a verdade” à nossa sabedoria.

Tais são, com efeito, as relações entre nós três. Do fundo do meu ser, amo somente a vida – e, na verdade, nunca a amo tanto como quando a detesto!

Que, porém, eu seja condescendente com a sabedoria, e muitas vezes condescendente demais: isto provém de que ela me lembra demasiado a vida!

Tem os seus olhos, o seu sorriso e até, mesmo, o seu pequeno caniço com o anzol de ouro; é minha culpa se as duas são tão parecidas?

E quando, certa vez, a vida me perguntou: “Que vem a ser a sabedoria?” – respondi solícito: “Pois é, ai de mim, a sabedoria!

Tem-se sede dela e não se fica saciado, olha-se para ela através de véus, procura-se caçá-la com redes.

É bonita? Sei lá! Mas é uma isca com que as mais velhas carpas ainda se deixam fisgar.

Mutável, é ela, e voluntariosa; vi-a, freqüentemente, morder os lábios e passar o pente no cabelo a contrapelo.

Talvez seja má e falsa e, em tudo, feminina; mas, quando fala mal de si mesma, é então que mais seduz.”

Depois que disse isto à vida, esta riu maldosamente e fechou os olhos. “De quem estiveste falando?”, indagou. “De mim, não é verdade?

E ainda que tivesses razão – isso lá se diz na minha cara! Mas, agora, vamos, fala, também, da tua sabedoria!”


Ah, voltaste a abrir os olhos, então, ó amada vida! E pareceu-me que, de novo, eu me afundava no imperscrutável. –





[ "Assim Falou Zaratustra" - Friedrich Nietzsche ]

20100425

os dias de verão







Os dias de verão vastos como um reino
Cintilantes de areia e maré lisa
Os quartos apuram seu fresco de penumbra
Irmão do lírio e da concha é nosso corpo


Tempo é de repouso e festa
O instante é completo como um fruto
Irmão do universo é nosso corpo


O destino torna-se próximo e legível
Enquanto no terraço fitamos o alto enigma familiar dos astros
Que em sua imóvel mobilidade nos conduzem


Como se em tudo aflorasse eternidade


Justa é a forma do nosso corpo








[ Sophia de Mello Breyner Andresen ]

20100415

Chamo-Te






Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio
E suportar é o tempo mais comprido.


Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e acabe.


Há muitas coisas que não quero ver.


Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.







[ Sophia de Mello Breyner Andresen ]







Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga.




(Sophia de Mello Breyner Andresen)

Caminhava fito








Caminhava fito,
Sobre o seu ombro esquerdo
Um pássaro nocturno e verde não cantava,
Obscuras correntes,
Desconhecidas direcções do vento,
Secreto curso de estrelas invisíveis.




SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN

TEOLOGIA DO TRASTE






As coisas jogadas fora por motivo de traste
são alvo da minha estima.
Prediletamente latas.
Latas são pessoas léxicas pobres porém concretas.
Se você jogar na terra uma lata por motivo de
traste: mendigos, cozinheiras ou poetas podem pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes, por
exemplo, do que as idéias.
Porque as idéias, sendo objetos concebidos pelo
espírito, elas são abstratas.
E, se você jogar um objeto abstrato na terra por
motivo de traste, ninguém quer pegar.
Por isso eu acho as latas mais suficientes.
A gente pega uma lata, enche de areia e sai
puxando pelas ruas moda um caminhão de areia.
E as idéias, por ser um objeto abstrato concebido
pelo espírito, não dá para encher de areia.
Por isso eu acho a lata mais suficiente.
Idéias são a luz do espírito — a gente sabe.
Há idéias luminosas — a gente sabe.
Mas elas inventaram a bomba atômica, a bomba
atômica, a bomba atôm.................................
........................................................... Agora
eu queria que os vermes iluminassem.
Que os trastes iluminassem.






[ manoel de barros ]

20100412

AMÉM






Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na Deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,


Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,


Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,


Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o Amor tem asas de ouro. Amém.




[ natália correia ]

O SONO





Das cátedras da virtude



Gabaram a Zaratustra um sábio, que sabia falar doutamente do sono e da virtude; diziam que muitos o respeitavam e remuneravam por isso, e que todos os jovens se aglomeravam diante da sua cátedra. Foi ouvi-lo Zaratustra e sentou-se com os jovens diante da sua cátedra. E assim falou o sábio:

“Respeito e pudor diante do sono! Isso em primeiro lugar! E evitar todos os que dormem mal e passam a noite acordados!

Diante do sono, até o ladrão tem pudor: é sempre de mansinho que se retira na noite. Mas despudorado é o guarda-noturno, que traz despudoradamente sua corneta.

Não é uma arte fácil, dormir: faz-se mister, para começar, passar o dia todo acordado.

Dez vezes durante o dia, és obrigado a vencer-te a ti mesmo; isso gera um bom cansaço e é papoula para a alma.

Dez vezes és obrigado a reconciliar-te contigo mesmo; pois é penoso vencer-se a si mesmo e dorme mal o irreconciliado.

Dez verdades cumpre-te achar durante o dia; de outro modo, ainda procuras verdades durante a noite, pois tua alma ficou com fome.

Dez vezes deves, rir, de dia, e estar alegre; do contrário, à noite te incomodará o teu estômago, esse pai das aflições.

Poucos sabem disto: que é preciso ter todas as virtudes, para dormir bem. Direi falso testemunho? Cometerei adultério?

Desejarei a mulher do meu próximo? Nada disso seria compatível com um bom sono.

E, mesmo quando se possuem todas as virtudes, cumpre ainda entender de uma coisa: mandar dormir, a tempo, também as virtudes.

Para que não briguem entre si, essas amáveis mulherzinhas! E a teu respeito, infeliz!

Paz com Deus e o teu próximo: é o que te exige o bom sono. E paz, também, com o demônio do teu próximo. Senão, ele virá incomodar-te durante a noite.

Respeito à autoridade e respeito, também à autoridade cambaia! É o que exige o bom sono. Que culpa tenho eu de que o poder goste de caminhar com pernas tortas!

Sempre, a meu ver, será o melhor pastor aquele levar sua ovelha para o pasto mais verde: isso condiz com o bom sono.

Não quero muitas honras nem, tampouco, grandes tesouros: isso causa inflamação do baço. Mas dorme-se mal sem uma boa reputação e um pequeno tesouro.

Prefiro a companhia de pouca gente à companhia de gente má; mas ela deve vir e ir embora a tempo. Isso condiz com o bom sono.

Muito me agradam, também, os pobres de espírito: conciliam o sono. Bem-aventurados são eles, especialmente se lhes damos sempre razão.

Assim transcorre o dia para o homem virtuoso. Quando, porém, chega a noite, eu bem me guardo de invocar o sono! Não quer ser invocado, o sono, que é o senhor das virtudes!

Mas penso no que fiz e pensei durante o dia. Ruminando, eu me pergunto, paciente como uma vaca: quais foram, afinal, as dez vitórias sobre mim mesmo?

E quais foram as dez reconciliações e as dez verdades e as dez risadas com que se regalou meu coração?

Assim meditando e embalado por quarenta pensamentos, assalta-me, repentinamente, o sono, o não invocado, o senhor das virtudes.

Bate o sono em meus olhos: e eles se tornam pesados. Toca o sono minha boca: e ela fica aberta.

Em verdade, vem a mim na ponta dos pés, o mais amado dos gatunos, e rouba meus pensamentos; e lá fico eu em pé, estúpido como essa cátedra.

Mas, então, não me demoro assim ainda por muito tempo: eis que já estou deitado.” –

Quando ouviu o sábio falar assim, riu-se Zaratustra em seu coração: porque uma luz raiara nele. E assim falou ao seu coração:

“Um louco parece-me este sábio com os seus quarenta pensamentos; mas acho que, realmente, entende de sono.

Feliz quem mora perto deste sábio! Um sono como esse é contagioso, até, através de uma espessa parede.

Há um fascínio mesmo na sua cátedra. E não em vão ficam os discípulos sentados diante do pregador de virtude.

Sua sabedoria reza: ficar acordado para dormir bem. E, na verdade, não tivesse a vida sentido algum e devesse eu escolher um disparate, também para mim esse disparate seria o mais digno de escolha.

Compreendo, agora, claramente, o que outrora se procurava, acima de tudo, quando se procuravam os mestres da virtude. Procurava-se um bom sono e, mais, virtudes com a virtude da papoula.

Para todos esses decantados sábios das cátedras, era a sabedoria um sono sem sonhos; não conheciam nenhum melhor sentido da vida. Ainda há hoje uns quantos deles, iguais a este pregador da virtude e nem sempre tão honestos; mas o seu tempo acabou. E não se demorarão ainda em pé por muito tempo: eis que já estão deitados.

Bem-aventurados são os que têm sono: porque breve adormecerão.” –

Assim falou Zaratustra.





(NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra: Um livro para todos e para ninguém. 9ª Edição, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998).

Das Três Metamorfoses








Isso dissera Zaratustra ao seu coração quando o sol estava no meio-dia; volveu, então, para o alto um olhar indagador – pois ouvia sobre sua cabeça o grito agudo de uma ave. E eis que viu uma águia voando em amplos círculos no ar e dela pendia uma serpente, não como presa, mas como amiga, pois se segurava enrolada em seu pescoço.

“São os meus animais!”, disse Zaratustra, regojizando-se de todo o coração.

“O animal mais altivo debaixo do sol e o animal mais prudente debaixo do sol – saíram em exploração.

Querem saber se Zaratustra ainda está vivo. Em verdade, estou eu ainda vivo?

Encontrei mais perigo entre os homens do que entre os animais, perigosos são os caminho de Zaratustra. Possam guiar-me os meus animais!”

Após dizer isso, lembrou-se Zaratustra das palavras do santo na floresta, suspirou e falou assim ao seu coração:


“Pudesse eu ser mais prudente! Pudesse eu ser prudente por natureza, como a minha serpente!

Mas estou pedindo o impossível; assim peço à minha altivez que acompanhe sempre minha prudência .

E se, algum dia, a minha prudência me abandonar – ah, como gosta de bater asas! –, possa a minha altivez, então, voar ainda assim em companhia da minha loucura!”


Assim começou o ocaso de Zaratustra.



* * *



DAS TRÊS METAMORFOSES





Três metamorfoses, nomeio-vos, do espírito: como o espírito se torna camelo e o camelo, leão e o leão, por fim, criança.

Muitos fardos pesados há para o espírito, o espírito forte, o espírito de suportação, ao qual inere o respeito; cargas pesadas, as mais pesadas, pede a sua força.

“O que há de pesado?”, pergunta o espírito de suportação; e ajoelha como um camelo e quer ficar bem carregado.

“O que há de mais pesado, ó heróis”, pergunta o espírito de suportação, “para que eu o tome sobre mim e minha força se alegre?

Não será isto: humilhar-se, para magoar o próprio orgulho? Fazer brilhar a própria loucura, para escarnecer da própria sabedoria?

Ou será isto: apartar-se da nossa causa, quando ela celebra o seu triunfo?
Subir para altos montes, a fim de tentar o tentador?

Ou será isto: alimentar-se das bolotas e da erva do conhecimento e, por amor à verdade, padecer fome na alma?

Ou será isto: estar enfermo e mandar embora os consoladores e ligar-se de amizade aos surdos, que não ouvem nunca o que queremos?

Ou será isto: entrar na água suja, se for a água da verdade, e não enxotar de si nem as frias rãs nem os ardorosos sapos?

Ou será isto: amar os que nos desprezam e estender a mão ao fantasma, quando ele nos quer assustar?”

Todos esses pesadíssimos fardos toma sobre si o espírito de suportação; e, tal como o camelo, que marcha carregado para o deserto, marcha ele para o seu próprio deserto.

Mas, no mais ermo dos desertos, dá-se a segunda metamorfose: ali o espírito torna-se leão, quer conquistar, como presa, a sua liberdade e ser senhor em seu próprio deserto.
Procura, ali, o seu derradeiro senhor: quer tornar-se-lhe inimigo, bem como do seu derradeiro deus, quer lutar para vencer o dragão.

Qual é o grande dragão, ao qual o espírito não quer mais chamar senhor nem deus? “Tu deves” chama-se o grande dragão. Mas o espírito do leão diz: “Eu quero”.

“Tu deves” barra-lhe o caminho, lançando faíscas de ouro; animal de escamas, em cada escama resplende, em letras de ouro, “Tu deves!”

Valores milenários resplendem nessas escamas; e assim fala o mais poderoso de todos os dragões: “Todo o valor das coisas resplende em mim.

Todo o valor já foi criado e todo o valor criado sou eu. Na verdade, não deve mais haver nenhum ‘Eu quero’!” Assim fala o dragão.

Meus irmãos, para que é preciso o leão, no espírito? Do que já não dá conta suficiente o animal de carga, suportador e respeitador?

Criar novos valores – isso também o leão ainda não pode fazer; mas criar para si a liberdade de novas criações – isso a pujança do leão pode fazer.

Conseguir o direito de criar novos valores – essa é a mais terrível conquista para o espírito de suportação e de respeito. Constitui para ele, na verdade, um ato de rapina e tarefa de animal rapinante.

Como o que há de mais sagrado amava ele, outrora, o “Tu deves”; e, agora, é forçado a encontrar quimera e arbítrio até no que tinha de mais sagrado, a fim de arrebatar a sua própria liberdade ao objeto desse amor: para um tal ato de rapina, precisa-se do leão.

Mas dizei, meus irmãos, que poderá ainda fazer uma criança, que nem sequer pôde o leão? Por que o rapace leão precisa ainda tornar-se criança?

Inocência, é a criança, e esquecimento; um novo começo, um jogo, uma roda que gira por si mesma, um movimento inicial, um sagrado dizer “sim”.

Sim, meus irmãos, para o jogo da criança é preciso dizer um sagrado “sim”: o espírito, agora, quer a sua vontade, aquele que está perdido para o mundo conquista o seu mundo.

Nomeei-vos três metamorfoses do espírito: como o espírito tornou-se camelo e o camelo, leão e o leão, por fim, criança.

Assim falou Zaratustra. E achava-se nesse tempo, na cidade chamada A Vaca Pintalgada.


(NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra: Um livro para todos e para ninguém. 9ª Edição, Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998).









20100410

VENTO






Se a gente jogar uma pedra no vento
Ele nem olha para trás.
Se a gente atacar o vento com enxada
Ele nem sai sangue da bunda.
Ele não dói nada.
Vento não tem tripa.
Se a gente enfiar uma faca no vento
Ele nem faz ui.
A gente estudou no Colégio que vento
é o ar em movimento.
E que o ar em movimento é vento.
Eu quis uma vez implantar uma costela
no vento.
A costela não parava nem.
Hoje eu tasquei uma pedra no organismo
do vento.
Depois me ensinaram que vento não tem
organismo.
Fiquei estudado.





[ manoel de barros ]

CANÇÃO DE VER










Por viver muitos anos dentro do mato
moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas por
igual
Como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas
Água não era ainda a palavra água
Pedra não era ainda a palavra pedra;
E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
Podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar às pedras costumes de flor.
Podia dar ao canto formato de sol.
E, se quisesse caber em uma abelha, era
Só abrir a palavra abelha e entrar dentro
dela

Como se fosse a infância da língua.








"poemas rupestres" - manoel de barros

20100409

passarinhada







E agora
que fazer
com esta manhã desabrochada a pássaros?







[ "poemas rupestres" - manoel de barros ]

passarinhada





Desde sempre parece que ele fora preposto a pássaro.
Mas não tinha preparatórios de uma árvore
Pra merecer no seu corpo ternuras de gorjeios.
Ninguém de nós, na verdade, tinha força de fonte.
Ninguém era início de nada.
A gente pintava nas pedras a voz.
E o que dava santidade às nossas palavras era
a canção do ver!
Trabalho nobre aliás mas sem explicação
Tal como costurar sem agulha e sem pano.
Na verdade na verdade
Os passarinhos que botavam primavera nas palavras.




[ “POEMAS RUPESTRES” - Manoel de Barros ]

passarinhada








Com aquela sua maneira de sol entrar em casa
E com o seu olhar furado de nascentes
O menino podia ver até a cor das vogais –
Como o poeta Rimbaud viu.
Contou que viu a tarde latejas de andorinhas.
E viu a garça pousada na solidão de uma pedra.
E viu outro lagarto que lambia o lado azul do
silêncio.
Depois o menino achou na beira do rio uma pedra
canora.
Ele gostava de atrelar palavras de rebanhos
diferentes
Só para causar distúrbios no idioma.
Pedra canora causa!
E um passarinho que sonhava de ser ele também
causava.
Mas ele mesmo, o menino
Se ignorava como as pedras se ignoram.


[ "POEMAS RUPESTRES" - Manoel de Barros ]

Do super-homem








PRÓLOGO




Aos trinta anos de idade, deixou Zaratustra sua terra natal e o lago de sua terra natal e foi para a montanha. Gozou ali, durante dez anos, de seu próprio espírito e da solidão, sem deles se cansar. No fim, contudo, seu coração mudou; e, certa manhã, levantou-se ele com a aurora, foi para diante do sol e assim lhe falou:

“Que seria a tua felicidade, ó grande astro, se não tivesses aqueles que iluminas!
São dez anos que sobes à minha caverna; e já se te haveriam tornado enfadonhos a tua luz e este caminho, sem mim, a minha águia e a minha serpente.
Mas nós te esperávamos todas as manhãs, tomávamos de ti o teu supérfluo e por ele ter abençoávamos.
Vê! Aborreci-me da minha sabedoria, como a abelha do mel que ajuntou em excesso; preciso de mãos que para mim se estendam.
Eu desejaria dar e distribuir tanto, que os sábios dentre os homens voltassem a alegrar-se de sua loucura e os pobres, de sua riqueza.
Por isso, é preciso que eu baixe às profundezas, como fazes tu à noite, quando desapareces atrás do mar, levando ainda a luz ao mundo ínfero, ó astro opulento!
Como tu, devo ter meu ocaso, segundo dizem os homens para junto dos quais quero descer.
Abençoa-me, pois, olho tranqüilo, que pode, sem inveja, contemplar uma ventura ainda que demasiado grande!
Abençoa a taça que quer transbordar, a fim de que sua água escorra dourada, levando por toda parte o reflexo de tua bem-aventurança!
Vê! Esta taça quer voltar a esvaziar-se e Zaratustra quer voltar a ser homem.”


Assim começou o acaso de Zaratustra.






II


Zaratustra desceu a montanha sozinho e sem encontrar ninguém. Mas, quando chegou às florestas, deparou repentinamente com um velho, que deixara a sua sagrada choupana para ir à procura de raízes no mato. E assim falou o velho a Zaratustra:

“Não me é desconhecido , este viandante; passou por aqui há muitos anos. Chamava-se Zaratustra; mas está mudado.
Naquele tempo, levavas a tua cinza para o monte; queres, hoje, trazer o fogo para o vale? Não receias as penas contra os incendiários?
Sim, reconheço Zaratustra. Puro é seu olhar e não há em sua boca nenhum laivo de náusea. Não será por isso que caminha como um dançarino?

Mudado está Zaratustra, tornou-se uma criança, Zaratustra, despertou, Zaratustra; que pretendes, agora, entre os que dormem?
Vivias na solidão como num mar e o mar te transportava. Ai de ti, queres ir a terra? Ai de ti, queres novamente arrastar tu mesmo o teu corpo?”
Zaratustra respondeu: “Amo os homens”
“E por que foi, então”, disse o santo, “que me recolhi à floresta e ao ermo? Não foi porque amei demais os homens?
Agora, amo Deus, não amo os homens. Coisa por demais imperfeita é, para mim, o ser humano. O amor aos homens me mataria.”
Zaratustra respondeu: “Por que fui falar de amor! Trago aos homens um presente.”
“Não lhes dês nada”, disse o santo. “Tira-lhes, de preferência, alguma coisa de cima e ajuda-os a levá-la; será o que de melhor poderás fazer por eles, se for bom para ti.
E, se queres dar-lhes alguma coisa, que não seja mais do que uma esmola; e, mesmo assim, só depois que a mendiguem.”
“Não”, respondeu Zaratustra, “eu não dou esmolas. Não sou bastante pobre para isso.”
Riu o santo de Zaratustra e falou assim: “Trata, então, de que aceitem os teus tesouros! Eles desconfiam dos solitários e não acreditam que os procuremos para presenteá-los.
Por demais desacompanhados, para eles, ecoam nossos passos nas ruas. E, quando, à noite, em suas camas, ouvem alguém caminhar muito antes que o sol desponte, perguntam a si mesmos: ‘Aonde irá esse ladrão?’
Não vás para junto dos homens, e fica na floresta! Vai ter, antes, com os animais! Por que não queres ser como eu – um urso entre os ursos, um pássaro entre os pássaros?”
“E o que faz um santo na floresta?”, indagou Zaratustra.
O santo respondeu: “Faço canções e as canto; e, quando faço canções, rio, choro e falo de mim para mim: assim louvo a Deus.
Cantando, chorando, rindo e falando de mim para mim, louvo o Deus que é o meu Deus. Mas tu, que nos trazes de presente?”
Ao ouvir essas palavras, despediu-se Zaratustra do santo, dizendo: “Que teria eu para dar-vos? Mas deixai-me ir embora depressa, antes que vos tire alguma coisa!” E assim se separaram, o velho e o homem, rindo como dois meninos.
Mas, quando ficou só, Zaratustra falou assim ao seu próprio coração: “Será possível? Esse velho santo, em sua floresta, ainda não soube que Deus está morto.“


III

Ao chegar à cidade mais próxima, encontrou Zaratustra grande quantidade de povo reunido na praça do mercado; pois lhes fora prometido que iriam ver um funâmbulo. E Zaratustra assim falou ao povo: “Eu vos ensino o super-homem. O homem é algo que deve ser superado. Que fizestes para superá-lo?
Todos os seres, até agora, criaram algo acima de si mesmos; e vós quereis ser a baixa-mar dessa grande maré cheia e retrogradar ao animal, em vez de superar o homem?
Que é o macaco para o homem? Um motivo de riso ou de dolorosa vergonha. E é justamente isso que o homem deverá ser para o super-homem: um motivo de riso ou de dolorosa vergonha.
Percorrestes o caminho que vai do verme ao homem, mas ainda tendes muito do verme. Fostes macacos, um tempo, e, também agora, o homem é ainda mais macaco do que qualquer macaco.
Mas o mais sábio dentro vós não passa de uma discrepância e de um híbrido de planta e fantasma. Mas vos mando eu, porventura, tornar-vos fantasmas ou plantas?
Vede, eu vos ensino o super-homem!
O super-homem é o sentido da terra. Fazei a vossa vontade dizer: ‘Que o super-homem seja o sentido da terra!’
Eu vos rogo, meus irmãos, permaneceis fiéis a terra e não acrediteis nos que vos falam de esperanças ultraterrenas! Envenenadores, são eles, que o saibam ou não.
Desprezadores da vida, são eles, e moribundos, envenenados por seu próprio veneno, dos quais a terra está cansada; que desapareçam, pois, de uma vez!
Outrora, o delito contra Deus era o maior dos delitos; mas Deus morreu e, assim, morreram também os delinqüentes dessa espécie. O mais terrível, agora, é delinqüir contra a terra e atribuir mais valor às entranhas do imperscrutável do que ao sentido da terra!
Outrora, a alma olhava desdenhosamente o corpo; e esse desdém era o que havia de mais elevado; - queria-o magro; horrível, faminto. Pensava, assim, escapar-se dele e da terra.
Oh, essa alma era, ela mesma, ainda magra, horrível e faminta; e a crueldade era sua volúpia!
Mas também ainda vós, meus irmãos, dizei-me: que vos informa vosso corpo a respeito de vossa alma? Não é ela miséria, sujeira e mesquinha satisfação?
Em verdade, um rio imundo, é o homem. E é realmente preciso ser um mar, para absorver, sem sujar-se, um rio imundo.
Vede, eu vos ensino o super-homem: é ele o mar onde pode submergir o vosso grande desprezo.
Que podeis experimentar de mais excelso? A hora do grande desprezo. A hora em que também vossa felicidade se converte em náusea, do mesmo modo que a vossa razão e a vossa virtude.
A hora em dizeis: ‘Que me importa a minha felicidade! Não passa de miséria, sujeira e mesquinha satisfação. Mas, justamente, é a minha felicidade que deveria justificar minha existência!
A hora em que dizeis: ‘Que me importa a minha razão! Acaso cobiça ela o saber, como o leão seu alimento? Não passa de miséria, sujeira e mesquinha satisfação!
A hora em que dizeis: ‘Que me importa a minha virtude! Ainda não me fez delirar. Como estou farto daquilo que, para mim, é o bem e o mal! Tudo isso não passa de miséria, sujeira e mesquinha satisfação!
A hora em que dizeis: ‘Que me importa minha justiça! Não vejo que por ela eu me tornasse carvão em brasa. Mas o justo torna-se carvão em brasa!
A hora em que dizeis: ‘Que me importa a minha compaixão! Não é a compaixão a cruz na qual se prega aquele que ama os homens? Mas a minha compaixão não é crucificação.”

Já falastes assim? Já gritastes assim? Ah, se eu vos tivesse ouvido, algum dia, gritar assim!
Não o vosso pecado, a vossa moderação brada ao céus, a vossa avareza até no pecado brada aos céus!
Onde está o raio que vos lambe com sua língua? Onde, a loucura com que deveríeis ser vacinados?
Vede, eu vos ensino o super-homem: porque é ele esse raio e essa loucura! – ”

Depois que Zaratustra assim falou, alguém no meio do povo gritou: “Já basta de ouvirmos falar do funâmbulo; agora, queremos também vê-lo” e o povo todo riu-se de Zaratustra. Mas o funâmbulo, julgando que o discurso se houvesse referido a ele, preparou-se para o seu trabalho.



[ "Assim Falou Zaratustra" - Friedrich Nietzsche ]

20100408

Rosai por nós





nossa senhora da flor roxa
rosai por nós
assim na vida
como no chão
a primavera de cada ano
nos dai hoje
encantai nosso jardim
assim como encantamos
o do vizinho
e não nos deixeis cair na tentação
de esquecer tuas flores



(Alice Ruiz)

O Tempo Certo Para um Pic-Nic






Trecho do Livro de Thich Nhat Hanh "Peace Begins Here: Palestinians and
Israelis Listening to Each Other" publicado pela Parallax Press.
Tradução Samuel Cavalcante



"Era uma vez um professor que vivia com seus estudantes em um templo. Um dia um estudante perguntou ' querido professor, vamos fazer um pc-nic um dias desses?'. O professor respondeu 'Sim, vamos achar um dia para fazermos um pic-nic'. Mas eles eram muito ocupados, nunca acharam esse dia. Um ano passou, depois dois, três e mesmo assim não conseguiram fazer um pic-nic. Um dia, enquanto caminhavam juntos pela cidade, eles viram um funeral passando. O professor perguntou ao seu aluno 'O que é isso?'. O estudante disse 'Eles estão indo fazer um pic-nic. O único pic-nic que eles conseguem fazer é quando eles morrem' ".

Eu vivi durante duas guerras do Vietnã e sei o que é a guerra - você nunca sabe se estará vivo esta tarde ou à noite. Existe medo, raiva e desespero. Se você não conseguir lidar com essas coisas, não conseguirá sobreviver. É por isso que a nossa prática é fazer um pic-nic aqui e agora, sem esperar. É possível para os israelenses e palestinos fazerem um pic-nic para que todos possam aproveitar cada momento? Acho que sim.

O pic-nic pode estar acontecendo agora mesmo, neste exato momento. Uma bomba pode explodir hoje, mas, mesmo assim, faremos nosso pic-nic. Estamos todos juntos sentados aqui. Não há nada a fazer. Apenas sentir o prazer de estarmos sentados, sem preocupação - por que sentar-se é um prazer. Ouvir alguém falar também é um prazer. Não precisamos aprender nada, passar em nenhuma prova ou ter diploma. Apenas sentamos e aproveitamos a inspiração e a expiração, ouvindo alguém falando sobe paz. Não é minha intenção dar a ninguém idéias sobre a paz; vocês já estão cheios de idéias. Nossa intenção é sermos paz, aqui, nesse presente instante.

Frequentemente, nossos corpos não estão em paz. Podemos aprender a trazer paz para o nosso corpo, aqui e agora. Ele sofre, especialmente durante os tempos de guerra. Sentimos tensão, stress e pressão. Tratamos nosso corpo de maneira bastante dura e ele está cheio de conflitos. O modo como o tratamos o faz sofrer tanto que acabamos não tendo paz. Para trazer a paz pros nossos corpos, permitimos a eles descansar para que possam ter uma chance de se renovar e curar a si mesmos. Podemos fazer isso agora mesmo. Depois de uma ou duas horas, sentiremo-nos muito melhor. Não estamos apenas falando sobre a paz do corpo, estamos trazendo realmente a paz para dentro dele.

Todos nós temos sentimentos de tristeza, dor ou excitação. Nossos sentimentos fluem através de nós como um rio e frequentemente nos dominam. Estando juntos com nossos amigos que sabem como lidar com seus sentimentos e emoções, poderemos aprender também a lidar com os nossos. Em quinze minutos de respiração consciente consciente, podemos começar a saber como lidar com o nosso medo, desespero e raiva; isto é muito importante. Se você não souber lidar com seu corpo e com seus sentimentos de raiva, medo e desespero, você não poderá falar de paz. Lidar bem com eles trará paz e harmonia ao seu corpo, sentimentos e emoções.

Quando estamos dominados, não percebemos as coisas como elas são; desenvolvemos percepções erradas sobre quem somos nós, quem são os outros e sobre como é o mundo. Estas percepções erradas são a base de todas as nossas ações que trazem infelicidade, destruição, medo e raiva. Precisamos ser capazes de lidar com nossas percepções, para que possamos saber quais percepções são corretas e quais incorretas. A maior parte do nosso sofrimento advém de nossas percepções erradas. Precisamos dedicar um tempo para observar profundamente a natureza de nossas percepções para que não sejamos apanhados por elas, pois são a base de todos os nossos sentimentos, emoções e aflições.

Na vida cotidiana, poucas vezes estamos conscientes de nossos sentimentos, percepções e pensamentos. Raramente somos realmente nós mesmos. Frequentemente, somos vítimas de nossos sentimentos e percepções; somos como uma folha flutuando no oceano, com as ondas nos puxando pra lá e pra cá. Não somos soberanos de nossa própria situação. É por isso que é tão importante voltar ao o nosso lar, a nós mesmos. Dessa maneira, deixamos de ser dominados pela circunstâncias. Esta é a prática básica da paz. Se tivermos alguma paz em nosso corpo, em nossas emoções e em nossas percepções poderemos ajudar outras pessoas a encontrar a paz. Mas temos que começar por nós mesmos. Você não poderá ser um instrumento de paz se não tiver paz em si mesmo. Quando você se tornar esse instrumento, também se tornará um instrumento de Deus, de Allah, do Buda e da realidade última. Isso não é tão difícil. Podemos fazê-lo.

Encontrando Refúgio

Algumas vezes, nos sentimos muito cansados, não temos mais energia e queremos desistir - nossa situação é bastante difícil. Sentimo-nos como se não pudéssemos fazer mais nada. Queremos achar um lugar onde possamos estar protegidos e tomar refúgio em Deus, em Buda ou em Allah. Imagine uma onda que se cansou de subir e descer, pra cima e pra baixo, e que gostaria de buscar refúgio. Existe um refúgio para a onda, que é a água. Se a onda reconhecer que ela é a água e buscar nela o seu refúgio, não terá mais medo de subir e descer. É muito importante que ela saiba que é água e que não precisa buscar a água fora de si mesma.

Talvez você seja uma onda, cansado de subir e descer, de nascer e morrer. Você está procurando algo sólido, seguro e duradouro no qual se refugiar. Se você for uma onda, não precisa buscar pela água. Você é a água, aqui e agora. Deus não existe fora de nós. O absoluto, nosso refúgio, não está fora de nós, está bem aqui, dentro de nós. "Eu descanso em Deus" significa '' Eu tomo refúgio no absoluto". Podemos chamar o absoluto de natureza de Buda, Deus ou Allah; é tudo a mesma coisa.

Quando você descansa em Deus, você não precisa correr, apenas volta ao seu lar, você mesmo, como a onda na água. Se a onda continuar procurando, ela jamais encontrará a água. A única maneira de encontrá-la é voltar à casa de si mesma. Quando ela percebe que é água, encontra a paz. Ela pratica o descanso em Deus aqui e agora. Mesmo que ela continue a subir e descer, está pacificada. Podemos praticar assim - Deus, não como uma entidade separada de nós, mas como o fundamento de nosso ser.

Muitos de nós estamos presos ao ato de se tomar refúgio em uma noção. Pensamos que estamos tomando refúgio no Buda, mas tomamos refúgio em nossa noção de Buda. Pensamos que estamos tomando refúgio em Allah, mas Allah é apenas uma noção na nossa cabeça. É por isso que queremos aqui tomar refúgio no momento presente, na nossa inspiração, na nossa expiração, nos nossos passos. Estas são maneiras muito concretas de tomar refúgio. Inspirando, tomo refúgio na minha inspiração. Sou completamente minha inspiração. Confio na minha inspiração e, junto com ela, eu me torno a paz. Expirando, tomo refúgio na minha expiração, eu me torno minha expiração. Confio em minha expiração e me torno a paz com ela.



* * *

As Seis Perfeições







Estudos Budistas

Tradição do Ven. Thich Nhat Hanh




As Seis Perfeições (Paramitas) – parte 1



As seis paramitas são ensinamentos do Budismo Mahayana. Paramita é uma palavra que pode ser traduzida como "perfeição" ou "realização perfeita". O ideograma chinês para este termo significa "atravessar para a outra margem", que é a margem da coragem, da paz e da libertação. As perfeições devem ser praticadas em nossa vida diária. Estamos atualmente na margem do sofrimento, da raiva e da depressão, e queremos atravessar para a margem do bem-estar. Para atravessar, é preciso fazer alguma coisa, e é a isso que chamamos de perfeição. Assim, voltamos para nós mesmos, praticamos a respiração consciente e olhando nosso sofrimento, nossa raiva, nossa depressão, e sorrimos. Ao fazer isso, superamos a dor e atravessamos. Devemos praticar as "perfeições" todos os dias.



Todas as vezes que damos um passo consciente, temos a oportunidade de sair da terra da tristeza para a terra da alegria. A Terra Pura está disponível aqui e agora. O Reino de Deus é uma semente dentro de nós. Se soubermos plantar essa semente em um bom solo, ela se tornará uma árvore, onde os pássaros virão se refugiar. Pratiquem a travessia para a outra margem sempre que sentirem necessidade. O Buda disse: "Não fique esperando que a outra margem venha até você. Se quiser atravessar para chegar à margem da segurança, do bem-estar, da coragem e da ausência de raiva, terá que nadar ou remar. Você precisa fazer um esforço." Esse esforço é a prática das Seis Perfeições.



(1) Dana paramita - Doação, generosidade, oferta.

(2) Shila paramita - Os preceitos ou treinamentos da atenção plena.

(3) Kshanti paramita - Tolerância, a capacidade de acolher, suportar e transformar a dor infligida a você por seus inimigos e também pelas pessoas que o amam.

(4) Virya pammita - O esforço, energia, perseverança.

(5) Dhyana paramita - A meditação.

(6) Prajna paramita - A sabedoria, compreensão, insight.



Praticar as seis perfeições ajuda a atingir a outra margem - a margem da liberdade, da harmonia e dos bons relacionamentos.



A primeira prática da travessia é a perfeição da generosidade (a dana paramita). Dar significa, primeiro, oferecer alegria, felicidade e amor. Existe uma planta, muito conhecida na Ásia - um membro da família das cebolas, que fica deliciosa nas sopas, no arroz frito e nos omeletes - que a cada vez que a cortamos torna a crescer em vinte e quatro horas. E quanto mais se corta essa planta, maior e mais forte ela cresce. A planta representa a dana paramita. Não guardamos nada para nós. Apenas queremos dar. Talvez a outra pessoa se sinta feliz com isso, mas com certeza os maiores beneficiados seremos nós mesmos. Em diversas histórias sobre as vidas passadas de Buda, nós o encontramos praticando a perfeição da generosidade.



A maior dádiva que podemos dar a alguém é nossa presença verdadeira. Um menino que conheço ouviu de seu pai: "O que você quer de aniversário?" O menino hesitou. O pai era rico e podia lhe dar o que pedisse. Mas passava tanto tempo ganhando dinheiro que quase nunca estava com a família. Por isso, o menino respondeu: "Pai, eu quero você!" A mensagem era clara. Se amamos alguém, temos que ofertar nossa presença verdadeira a essa pessoa. Quando damos esse presente, recebemos ao mesmo tempo o presente da alegria. Aprenda a oferecer sua presença verdadeira através da meditação. Inspirando conscientemente, promova a união do corpo e da mente. "Querido, estou aqui para você" é um mantra a ser repetido quando praticar essa perfeição.



O que mais podemos oferecer? Nossa estabilidade. "Inspirando, eu sou uma montanha. Expirando, eu me sinto firme." A pessoa que amamos necessita de que sejamos firmes e estáveis. Podemos cultivar nossa estabilidade através da inspiração e da expiração, da caminhada com atenção plena, da meditação sentada, e também gostando de viver profundamente cada momento. A firmeza é uma das características do Nirvana.



O que mais podemos oferecer? Nossa liberdade. A felicidade não é possível, a menos que estejamos livres de aflições tais como desejo, raiva, ciúme, medo, ou percepções errôneas. A liberdade é uma das características do Nirvana. Alguns tipos de felicidade são realmente destrutivos para o corpo, a mente e os relacionamentos. Estar livre de desejos é uma prática importante. Contemple profundamente a natureza daquilo que você acha que vai lhe proporcionar felicidade e pense se, de fato, isso pode implicar sofrimento para aqueles que ama. É preciso ter certeza disso se queremos ser realmente livres. Volte-se para o momento presente, e desfrute as maravilhas da vida que estão disponíveis. Existem tantas coisas saudáveis capazes de nos proporcionar felicidade, como por exemplo um lindo nascer do sol, o céu azul, montanhas, rios, e os rostos felizes das pessoas que nos cercam.



O que mais podemos oferecer? Nosso frescor. "Inspirando, eu me vejo como uma flor. Expirando, eu me sinto com o frescor." Podemos inspirar e expirar três vezes para restaurar a flor dentro de nós. É um grande presente!



O que mais podemos oferecer? Paz. É maravilhoso sentar-se ao lado de alguém que esteja em paz. Nós nos beneficiamos com a sua paz. "Inspirando, eu sou a água calma. Expirando, reflito as coisas como elas são." Podemos oferecer nossa paz e nossa lucidez para aqueles que amamos.



O que mais podemos oferecer? Espaço. A pessoa amada precisa de espaço para ser feliz. Em um arranjo de flores, cada flor precisa de espaço ao seu redor para poder irradiar sua verdadeira beleza. As pessoas são como flores. Sem espaço interno e externo elas não podem ser felizes. Não podemos comprar este tipo de presente na loja. Temos que produzi-lo através da prática. E quanto mais dermos, mais teremos. Quando a pessoa que amamos está feliz, esta felicidade retoma para nós imediatamente. Nós damos algo a essa pessoa, mas na verdade estamos dando a nós mesmos.



Dar é uma prática maravilhosa. O Buda disse que quando se está zangado com alguém, a ponto de tentar de tudo e ainda continuar zangado, devemos praticar a perfeição da generosidade. Quando estamos com raiva, nossa tendência é punir a outra pessoa. Mas ao fazer isso só aumentamos nosso sofrimento. O Buda propôs que, em vez disso, mandássemos um presente para a pessoa que é motivo de nossa raiva. Quando estamos com muita raiva, não temos a menor vontade de sair e comprar um presente, por isso temos que preparar esse presente enquanto não estamos zangados. A seguir, quando tudo o mais falhar, devemos sair e enviar o presente para a pessoa. Constataremos, para nosso espanto, que logo estamos nos sentindo melhor. A mesma coisa é verdade no caso dos países. Para que Israel tenha paz e. segurança, os israelenses precisam achar formas de assegurar a paz e a segurança dos palestinos. E para que os palestinos tenham paz e segurança, eles também precisam encontrar maneiras de assegurar a paz e a segurança dos israelenses. Você recebe aquilo que dá. Em vez de tentar punir a outra pessoa, ofereça exatamente aquilo de que a pessoa necessita. A prática da doação pode conduzir rapidamente ao bem-estar.



Quando alguém nos faz sofrer, é porque essa pessoa sofre profundamente dentro de si mesma, e seu sofrimento está se esparramando do lado de fora. Esta pessoa não precisa de mais sofrimento, precisa de ajuda. Essa é a mensagem que está sendo enviada. Se você conseguir entender isso, ofereça o que a pessoa precisa - alívio. Felicidade e segurança não são questões individuais. A felicidade e a segurança do outro são fundamentais para a sua felicidade e a sua segurança. Deseje o bem do outro com sinceridade, para que você também fique bem.



O que mais podemos oferecer? Compreensão. A compreensão é a flor da prática. Focalize sua atenção concentrada em um objeto, observe profundamente o objeto, e você terá insight e compreensão. Ao oferecer compreensão aos outros, eles deixarão imediatamente de sofrer.



A primeira pétala da flor das perfeições é a prática da generosidade. Recebemos aquilo que damos, muito mais depressa do que os sinais enviados por satélite. Quer você dê sua presença, sua estabilidade, seu frescor, sua firmeza, sua liberdade, ou sua compreensão, sua dádiva fará milagres. A generosidade é a prática do amor.



A segunda prática é o aperfeiçoamento dos preceitos, ou treinamentos da atenção plena. Os Cinco Treinamentos da Atenção Plena ajudam a proteger o corpo, a mente, a família e a sociedade. O Primeiro Treinamento da Atenção Plena versa sobre proteger as vidas dos seres humanos, animais, vegetais e minerais. Proteger outros seres significa proteger a nós mesmos. O segundo treinamento versa sobre impedir a exploração de seres humanos, de outros seres vivos e da natureza. Relaciona-se com a prática da generosidade. O terceiro tem a ver com proteger crianças e adultos do abuso sexual, e preservar a felicidade dos indivíduos e das famílias. Muitas famílias já foram separadas devido à má conduta sexual. Quando praticamos o Terceiro Treinamento da Atenção Plena, protegemos a nós mesmos, as famílias e os casais, porque ajudamos os outros a se sentirem seguros. O Quarto Treinamento da Atenção Plena versa sobre praticar a fala amorosa e a escuta atenciosa. O Quinto Treinamento da Atenção Plena é sobre consumir de maneira consciente.



A prática dos Cinco Treinamentos da Atenção Plena é uma forma de amor e de doação. Assegura a boa saúde e a proteção da nossa família e da sociedade. Shila paramita é uma grande dádiva que oferecemos à sociedade, à família e àqueles a quem amamos. A maior dádiva que podemos ofertar aos outros é praticar os Cinco Treinamentos da Atenção Plena. Se vivermos de acordo com eles, estaremos protegendo a nós mesmos e as pessoas que amamos. Quando praticamos shila paramita, oferecemos o precioso presente da vida.



Vamos contemplar juntos as causas de nosso sofrimento, seja ele individual ou coletivo. Se fizermos isso, veremos que os Cinco Treinamentos da Atenção Plena são o remédio necessário para a doença de nossa época. Todas as tradições têm o equivalente aos Cinco Treinamentos da Atenção Plena. Cada vez que vejo alguém receber e praticar os Cinco Treinamentos da Atenção Plena, fico feliz - pela pessoa, por sua família e por mim mesmo - porque sei que essa é a forma mais objetiva possível de se ter consciência de tudo o que ocorre. Precisamos de uma Sangha ao nosso redor para poder praticar com profundidade.





(Do livro “A essência dos ensinamentos de Buda” – Thich Nhat Hanh)

20100407

Quando eu bebo chá, tenho a certeza de que estou bebendo nuvens.








O Que Acontece Quando Morremos?



Transcrição de uma palestra de
Dharma dada por Thây em Hong Kong, em 15 de Maio de 2007
Tradução: Samuel Cavalcante



Para responder ao que acontece conosco quando morremos, precisamos responder a uma outra questão: o que acontece quando estamos vivos? O que está acontecendo agora mesmo conosco? Em inglês costumamos dizer 'nós somos', mas é mais adequado dizer 'nós nos tornamos', por que as coisas estão sempre se tornando algo. Não somos a mesma pessoa em dois minutos consecutivos. Uma foto de quando você era bebê é diferente de você agora. De fato, você não é exatamente a mesma pessoa quando bebê e nem uma pessoa totalmente diferente. Em uma foto sua com cinco anos, você não é exatamente o mesmo e nem outra pessoa - a forma, os sentimentos e as formações mentais são diferentes.

No caminho do meio não existe nem a condição do que é o mesmo e nem a condição do que é diferente. Você pode pensar que ainda está vivo mas, de fato, você tem morrido todos os dias, a cada minuto células morrem e nascem - e nem por isso realizamos funerais ou aniversários (risos). A morte é a principal condição para o nascimento. Sem morte, não há nascimento. Eles intersão* e acontecem a todo momento para o praticante experiente. Por exemplo uma nuvem deve ter morrido muitas vezes, sob a forma de chuvas, rios, água. A nuvem deve querer cair rumo a si mesma na terra. A chuva é a continuação da nuvem. Praticando-se a meditação, nada fica escondido. Quando eu bebo chá, tenho a certeza de que estou bebendo nuvens.

Quando somos pais, morremos e renascemos como nossos filhos. "Vocês são minha continuação. Amo vocês". O Buda nos disse como assegurar uma linda continuação - um pensamento solidário**, um pensamento belo. Perdão é nossa continuação. Se raiva, separação e ódio surgem, então conseguiremos assegurar uma bela continuação. Ao pronunciarmos uma palavra que é solidária**, boa e bela, assim também será nossa continuação.

Quando uma nuvem é poluída, a chuva é poluída. Assim, ao purificarmos nossos pensamentos, palavras e ações, criaremos uma bela continuação. Podemos ver os efeitos de nossa fala em nossas crianças. Meus discípulos são minha continuação - tanto os monásticos, quanto os leigos. Desejo transmitir a fala, a ação e o pensamento amáveis. Isto é chamado karma no budismo.

O meu corpo se desintegrará, mas meu karma irá continuar - karma significa ação. Meu karma já está no mundo. Minha continuação está em toda parte. Quando você observar um dos meus discípulos caminhando de maneira solidária**, saberá que ele é minha continuação. Não quero transmitir minhas emoções negativas, quero transformá-las antes de transmití-las. A dissolução deste corpo não é o meu fim. Com certeza eu continuarei após a essa dissolução. Portanto não se preocupem com a minha morte, eu não morrerei.

Vamos meditar acerca do nascimento de uma nuvem. Ela tem uma certidão de nascimento? (Thay ri). Examine a noção de nascimento - a noção de que algo pode vir do nada, de ninguém, tornar-se alguém. É possível alguma coisa coisa vir do nada? Do ponto de vista da ciência, isto não é possível. A nuvem era água no oceano, nos lagos, rios e o calor do sol deu origem a ela - o momento de continuação da água. Por exemplo, nascimento - antes de você nascer você estava no ventre de sua mãe. O momento do nascimento é um momento de continuação. O momento da concepção é o começo? Metade de você provém do seu pai e metade da sua mãe, também isso faz parte do momento de continuação. Ao praticar a meditação você poderá ver coisas como essas.

É impossível a nuvem morrer. Ela pode se tornar água, neve - ela não poderá se tornar nada. É impossível nós morrermos. A nossa fala, ação e pensamento irão continuar no futuro. A pessoa que morre ainda continua, se não vemos isso é por que não somos capazes de usar nossa meditação para ver. Ela continua em nós e em torno de nós. Todos os ancestrais estão vivos em nós. Nossos ancestrais estão em nossos cromossomos. Há um tempo atrás, escrevi um livro chamado "Sem morte e nem medo" (No Death , No Fear publicado pela Parallax Press). Quando as condições são suficientes eu me manifesto e quando não são, não. Não existe vir ou ir. Antes de algo se manifestar, costumamos dizer que era algo não existente. Mas antes de sua manifestação, você não podia chamá-lo de não-ser. Ser e não-ser são pares de opostos.

Meditar sobre a natureza da criação e do ser é a melhor maneira de entender Deus. O teólogo Paul König descreve Deus como sendo a "Base do Ser". Quem então seria a base do não-Ser? Isto diminui Deus. No budismo, ambas as noçoes de ser e não-ser não podem descrever a realidade. De maneira similar, acima e abaixo, Europa e aqui. Nirvana é a ausência de todas as noções, nascimento e morte, ir e vir, mesmo e diferente. De acordo com o Budismo 'ser ou não-ser' não é realmente uma questão. A meditação nos leva para além, para um lugar onde não há medo. Somos demasiado ocupados, assim nos tornamos vítimas da raiva e do medo. Se conseguirmos tocar nossa natureza sem nascimento/morte, saberemos que morrer é uma das condições para nos tornarmos reais.

Temos que aprender a morrer em cada momento para estarmos verdadeiramento vivos. Este ensinamento do caminho do meio é o melhor do ensinamento do Buda. Muitos dos nossos ancestrais realizarm isso e não tinha medo da morte. Devemos ser capazes de relaxar nossas tensões. Nós somos o karma que produzimos no dia a dia de nosso cotidiano.(...) Tenho um discípulo que quer construir uma Stupa para guardar as minhas cinzas. Ele quer pôr uma placa com os dizeres " Aqui jaz o meu amado professor". Mas eu escreveria "Aqui não existe nada!" (muitos risos). Por que se você observar em profundidade existe uma continuação. Eu guardo o tempo que me resta principalmente para a minha prática. Quero gerar energia de amor, solidariedade e compreensão, para que assim eu continue de uma maneira bela.

Gostaria que vocês fizessem o mesmo. Usem o seu tempo de maneira sábia. A cada momento, produza belos pensamentos, bondade amorosa, perdão. Diga coisas bonitas, inspire, perdoe, aja no sentido de proteger e ajudar. Sabemos que somos capazes de produzir um belo karma para uma boa continuação e para a felicidade de outras pessoas.

Quando chegar a hora da dissolução do corpo, você poderá soltá-lo facilmente. Não desejará se agarrar a ele - liberando tanto o corpo quanto a percepção. Lembre-se da imagem da nuvem no céu vendo sua continuação no arroz ou no sorvete. Você já pode ver sua continuação. A arte de viver é uma continuação. Para mim e para todos os seres.


* intersão - verbo (inter+ser) criado por Thây para definir uma existência interdependente.
** solidário = compasivo. Ver nota do tradutor)

Broto,




As Coisas São Isentas de Idéias


As coisas todas não têm proveniência. Elas não vêm de lugar nenhum, por que são isentas de idéias de ser e não-ser. Elas não têm que nascer. Não podem ser pegas por nossas noções ou discriminadas por nossas categorias mentais. Elas vêm de lugar nenhum e vão para lugar nenhum. Não há autor ou criador. Essa é a verdadeira natureza da realidade. Podemos apenas tocar e experimentar as coisas quando estamos livres de conceitos de nascimento e morte, criador e criatura. Todas as coisas não têm proveniência, portanto, não têm nascimento. Porque não têm nascimento, não têm extinção tampouco.

TECEDEIRA








A VIAGEM


IMPOSSÍVEL EXPLICAR. Afastava-se aos poucos daquela
zona onde as coisas têm forma fixa e arestas, onde tudo tem
um nome sólido e imutável. Cada vez mais afundava na
região líquida, quieta e insondável, onde pairavam névoas
vagas e frescas como as da madrugada. Da madrugada
erguendo-se no campo. Na fazenda do tio acordara no meio
da noite. As tábuas da casa velha rangiam. De lá do primeiro
andar, solta no espaço escuro, afundara os olhos na terra,
procurando as plantas que se torciam enrodilhadas como
víboras. Alguma coisa piscava na noite, espiando, espiando,
olhos de um cão deitado, vigilante. O silêncio pulsava no seu
sangue e ela arfava com ele. Depois a madrugada nasceu
sobre as campinas, rosada, úmida. As plantas eram de novo
verdes e ingênuas, o talo fremente, sensível ao sopro do
vento, nascendo da morte. Já nenhum cão vigiava a fazenda,
agora tudo era um, leve, sem consciência. Havia então um
cavalo solto na campina quieta, a mobilidade de suas pernas
apenas adivinhada. Tudo impreciso, mas de súbito na
imprecisão encontrara uma nitidez que ela apenas adivinhara
e não pudera possuir inteiramente. Perturbada pensara:
tudo, tudo.
As palavras são seixos rolando no rio. Não fora felicidade
o que sentira então, mas o que sentira fora fluido, docemente
amorfo, instante resplandecente, instante sombrio. Sombrio
como a casa que ficava na estrada coberta de árvores
folhudas e poeira do caminho. Nela morava um velho
descalço e dois filhos, grandes e belos reprodutores. O mais
novo tinha olhos, sobretudo olhos, beijara-a uma vez, um dos
melhores beijos que jamais sentira, e alguma coisa erguia-se
no fundo de seus olhos quando ela lhe estendia a mão. Essa
mesma mão que agora repousava sobre o espaldar de uma
cadeira, como um pequeno corpinho aparte, saciado,
negligente. Quando era pequena costumava fazê-la dançar,
como a uma mocinha tenra. Dançara-a mesmo para o homem
que fugia ou fora preso, para o amante — e ele fascinado e
angustiado terminara por apertá-la, beijá-la como se
realmente a mão sozinha fosse uma mulher. Ah, vivera muito,
a fazenda, o homem, as esperas. Verões inteiros, onde as
noites decorriam insones, deixavam-na pálida, os olhos
escuros. Dentro da insônia, várias insônias. Conhecera
perfumes. Um cheiro de verdura úmida, verdura aclarada por
luzes, onde? Ela pisara então na terra molhada dos canteiros,
enquanto o guarda não prestava atenção. Luzes pendendo de
fios, balançando, assim, meditando indiferentes, música de
banda no coreto, os negros fardados e suados. As árvores
iluminadas, o ar frio e artificial de prostitutas. E sobretudo
havia o que não se pode dizer: olhos e boca atrás da cortina
espiando, olhos de um cão piscando a intervalos, um rio
rolando em silêncio e sem saber. Também: as plantas
crescendo de sementes e morrendo. Também:
longe em alguma parte, um pardal sobre um galho e alguém
dormindo. Tudo dissolvido. A fazenda também existia naquele
mesmo instante e naquele mesmo instante o ponteiro do
relógio ia adiante, enquanto a sensação perplexa via-se
ultrapassada pelo relógio.


Dentro de si sentiu de novo acumular-se o tempo vivido.
A sensação era flutuante como a lembrança de uma casa em
que se morou. Não da casa propriamente, mas da posição da
casa dentro de si, em relação ao pai batendo na máquina, em
relação ao quintal do vizinho e ao sol de tardinha. Vago, lon-
gínquo mudo. Um instante... acabou-se. E não podia saber se
depois desse tempo vivido viria uma continuação ou uma
renovação ou nada, como uma barreira. Ninguém impedia
que ela fizesse exatamente o contrário de qualquer das coisas
que fosse fazer: ninguém, nada... não era obrigada a seguir o
próprio começo... Doía ou alegrava? No entanto sentia que
essa estranha liberdade que fora sua maldição, que nunca
ligara nem a si própria, essa liberdade era o que iluminava
sua matéria. E sabia que daí vinha sua vida e seus momentos
de glória e daí vinha a criação de cada instante futuro.

Sobrevivera como um germe ainda úmido entre as
rochas ardentes e secas, pensava Joana. Naquela tarde já
velha — um círculo de vida fechado, trabalho findo —,
naquela tarde em que recebera o bilhete do homem, escolhera
um novo caminho. Não fugir, mas ir. Usar o dinheiro intocado
do pai, a herança até agora abandonada, e andar, andar, ser
humilde, sofrer, abalar-se na base, sem esperanças.
Sobretudo sem esperanças.

Amava sua escolha e a serenidade agora alisava-lhe o
rosto, permitia vir à sua consciência momentos passados,
mortos. Ser uma daquelas pessoas sem orgulho e sem pudor
que a qualquer instante se confiam a estranhos. Assim antes
da morte ligar-se-ia à infância, pela nudez. Humilhar-se
afinal. Como pisar-me bastante, como abrir-me para o mundo
e para a morte?

O navio flutuava levemente sobre o mar como sobre
mansas mãos abertas. Inclinou-se sobre a murada do convés
e sentiu a ternura subindo vagarosamente, envolvendo-a na
tristeza.

No convés os passageiros andavam de um lado para
outro, suportando mal a espera do lanche, ansiosos por
reunir o tempo ao tempo. Alguém disse, a voz magoada: olhe
a chuva! Realmente aproximava-se a névoa cinzenta, olhos
cerrados. Daí a pouco viam-se pingos largos caírem sobre as
tábuas do convés, o barulho de alfinetes tombando, e sobre a
água, furando-lhe imperceptivelmente a superfície. O vento
esfriou, levantaram-se as golas dos casacos, os olhares
subitamente inquietos, fugindo da melancolia como Otávio
com seu medo de sofrer. De profundis...


De profundis? Alguma coisa queria falar... De profundis...
Ouvir-se! prender a fugaz oportunidade que dançava com os
pés leves à beira do abismo. De profundis. Fechar as portas
da consciência. A princípio perceber água corrompida, frases
tontas, mas depois no meio da confusão o fio de água pura
tremulando sobre a parede áspera. De profundis. Aproximar-
se com cuidado, deixar escorrerem as primeiras vagas. De
profundis... Cerrou os olhos, mas apenas viu penumbra. Caiu
mais fundo nos pensamentos, viu imóvel uma figura magra
debruada de vermelho-claro, o desenho com um dedo úmido
de sangue sobre um papel, quando se arranhara e enquanto
o pai procurava iodo. No escuro das pupilas, os pensamentos
alinhados em forma geométrica, um superpondo-se ao outro
como um favo de mel, alguns casulos vazios, informes, sem
lugar para uma reflexão. Formas fofas e cinzentas, como um
cérebro. Mas isso ela não via realmente, procurava imaginar
talvez. De profundis. Vejo um sonho que tive: palco escuro
abandonado, atrás de uma escada. Mas no momento em que
penso "palco escuro" em palavras, o sonho se esgota e fica o
casulo vazio. A sensação murcha e é apenas mental. Até que
as palavras "palco escuro" vivam bastante dentro de mim, na
minha escuridão, no meu perfume, a ponto de se tornarem
uma visão penumbrosa, esgarçada e impalpável, mas atrás
da escada. Então terei de novo uma verdade, o meu sonho.
De profundis. Por que não vem o que quer falar? Estou
pronta. Fechar os olhos. Cheia de flores que se transformam
em rosas à medida que o bicho treme e avança em direção ao
sol do mesmo modo que a visão é muito mais rápida que a
palavra, escolho o nascimento do solo para... Sem sentido. De
profundis, depois virá o fio de água pura. Eu vi a neve tremer
cheia de nuvens rosadas sob a função azul das vísceras
cobertas de moscas ao sol, a impressão cinzenta, a luz verde
e translúcida e fria que existe atrás das nuvens. Fechar os
olhos e sentir como uma cascata branca rolar a inspiração.
De profundis. Deus meu eu vos espero, Deus vinde a mim.
Deus, brotai no meu peito, eu não sou nada e a desgraça cai
sobre minha cabeça e eu só sei usar palavras e as palavras
são mentirosas e eu continuo a sofrer, afinal o fio sobre a
parede escura. Deus vinde a mim e não tenho alegria e minha
vida é escura como a noite sem estrelas e Deus por que não
existes dentro de mim? por que me fizeste separada de ti?
Deus vinde a mim, eu não sou nada, eu sou menos que o pó
e eu te espero todos os dias e todas as noites, ajudai-me, eu
só tenho uma vida e essa vida escorre pelos meus dedos e
encaminha-se para a morte serenamente e eu nada posso
fazer e apenas assisto ao meu esgotamento em cada minuto
que passa, sou só no mundo, quem me quer não me conhece,
quem me conhece me teme e eu sou pequena e pobre, não sa-
berei que existi daqui a poucos anos, o que me resta para
viver é pouco e o que me resta para viver no entanto
continuará intocado e inútil, por que não te apiedas de mim?
que não sou nada, dai-me o que preciso. Deus, dai-me o que
preciso e não sei o que seja, minha desolação é funda como
um poço e eu não me engano diante de mim e das pessoas,
vinde a mim na desgraça e a desgraça é hoje, a desgraça é
sempre, beijo teus pés e o pó dos teus pés, quero me dissolver
em lágrimas, das profundezas chamo por vós, vinde em meu
auxílio que eu não tenho pecados, das profundezas chamo
por vós e nada responde e meu desespero é seco como as
areias do deserto e minha perplexidade me sufoca, humilha-
me, Deus, esse orgulho de viver me amordaça, eu não sou
nada, das profundezas chamo por vós, das profundezas cha-
mo por vós das profundezas chamo por vós das profundezas
chamo por vós...

Agora os pensamentos já se solidificavam e ela respirava
como um doente que tivesse passado pelo grande perigo.
Alguma coisa ainda balbuciava dentro dela, porém seu
cansaço era grande, tranqüilizava seu rosto em máscara Usa
e de olhos vazios. Das profundezas a entrega final. O fim...


Mas das profundezas como resposta, sim como resposta,
avivada pelo ar que ainda penetrava no seu corpo, ergueu-se
a chama queimando lúcida e pura... Das profundezas
sombrias o impulso inclemente ardendo, a vida de novo se
levantando informe, audaz, miserável. Um soluço seco como
se a tivessem sacudido, alegria rutilando em seu peito in-
tensa, insuportável, oh o turbilhão. Sobretudo aclarava-se
aquele movimento constante no fundo do seu ser — agora
crescia e vibrava. Aquele movimento de alguma coisa viva
procurando libertar-se da água e respirar. Também como
voar, sim como voar... andar na praia e receber o vento no
rosto, os cabelos esvoaçantes, a glória sobre a montanha...
Erguendo-se, erguendo-se, o corpo abrindo-se para o ar,
entregando-se à palpitação cega do próprio sangue, notas
cristalinas, tintilantes, faiscando na sua alma... Não havia
desencanto ainda diante de seus próprios mistérios, ó Deus,
Deus, Deus, vinde a mim não para me salvar, a salvação
estaria em mim, mas para abafar-me com tua mão pesada,
com o castigo, com a morte, porque sou impotente e medrosa
em dar o pequeno golpe que transformará todo o meu corpo
nesse centro que deseja respirar e que se ergue, que se
ergue... o mesmo impulso da maré e da gênese, da gênese! o
pequeno toque que no louco deixa viver apenas o pensamento
louco, a chaga luminosa crescendo, flutuando, dominando.
Oh, como se harmonizava com o que pensava e como o que
pensava era grandiosamente, esmagadoramente fatal. Só te
quero, Deus, para que me recolhas como a um cão quando
tudo for de novo apenas sólido e completo, quando o
movimento de emergir a cabeça das águas for apenas uma
lembrança e quando dentro de mim só houver
conhecimentos, que se usaram e se usam e por meio deles de
novo se recebem e se dão coisas, oh Deus.

O que nela se elevava não era a coragem, ela era
substância apenas, menos do que humana, como poderia ser
herói e desejar vencer as coisas? Não era mulher, ela existia e
o que havia dentro dela eram movimentos erguendo-a sempre
em transição. Talvez tivesse alguma vez modificado com sua
força selvagem o ar ao seu redor e ninguém nunca o
perceberia, talvez tivesse inventado com sua respiração uma
nova matéria e não o sabia, apenas sentia o que jamais sua
pequena cabeça de mulher poderia compreender. Tropas de
quentes pensamentos brotavam e alastravam-se pelo seu
corpo assustado e o que neles valia é que encobriam um
impulso vital, o que neles valia é que no instante mesmo de
seu nascimento havia a substância cega e verdadeira criando-
se, erguendo-se, salientando como uma bolha de ar a
superfície da água, quase rompendo-a... Ela notou que ainda
não adormecera, pensou que ainda haveria de estalar em fogo
aberto. Que terminaria uma vez a longa gestação da infância
e de sua dolorosa imaturidade rebentaria seu próprio ser,
enfim, enfim livre! Não, não, nenhum Deus, quero estar só. E
um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão
vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu
fizer será cegamente seguramente inconscientemente,
pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente
lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um
dia virá em que todo meu movimento será criação,
nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de
mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o
que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu
princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um
gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura
submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a
alma de um animal e quando eu falar serão palavras não
pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de
vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! o
que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum
espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os
homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de
mim para notar sequer que estarei criando instante por
instante, não instante por instante: sempre fundido, porque
então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei
brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o
que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas,
ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a
incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos
porque basta me cumprir e então nada impedirá meu
caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou
descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.


* * *



[ Perto do Coração Selvagem - C.L. ]

TECEDEIRA







No DIA SEGUINTE ela recebeu um bilhete do homem,
despedindo-se:
"Tive que ir embora por um tempo, tive que ir, vieram
me buscar, Joana. Eu volto, eu volto, espere por mim. Você
sabe que não sou nada, eu volto. Eu nem chegaria a ver
mesmo e a ouvir se não fosse você. Se me abandonar, ainda
vivo um pouco, o tempo que um passarinho fica no ar sem
bater asas, depois caio, caio e morro. Joana. Só não morro
agora porque volto, não posso explicar mas posso ver através
de você. Deus me ajude e Te ajude, única, eu volto. Nunca
falei tanto a você, mas por obséquio: eu não estou quebrando
a promessa, estou? Eu te entendo tanto tanto, tudo o que
Você precisar de mim eu tenho que fazer. O Senhor te
abençoe, vai aí minha medalhinha com S. Cristóvão e Santa
Teresinha."

Dobrou a carta devagar. Lembrou-se do rosto do
homem, nos últimos dias, seus olhos molhados, turvos, de
gato doente. E ao redor a pele escurecida e arroxeada, como
um crepúsculo. Para onde fora? A vida dele certamente era
confusa. Confusa em fatos. E de certo modo ele lhe parecia
sem ligação com esses fatos. A mulher que o sustentava,
aquela distração em relação a si mesmo, como quem não teve
um começo nem espera um fim... Para onde fora? Sofrerá
muito nos últimos dias. Ela deveria ter-lhe falado,
pretendera-o mesmo, mas depois, distraída e egoísta,
esquecera.
Para onde fora? — indagou-se, os braços vazios. O
turbilhão rodava, rodava, e ela era recolocada no início do
caminho. Olhou o bilhete onde a letra era fina e indecisa, as
frases escritas com cuidado e dificuldade. Reviu o rosto do
amante e amava levemente aqueles traços claros. Fechou os
olhos um instante, sentiu novamente o cheiro que vinha dos
corredores sombrios daquela casa inexplorada, com apenas
um aposento revelado, onde conhecera de novo o amor.
Cheiro de maçãs velhas, doces e velhas, que vinha das
paredes, de suas profundezas. Reviu a cama estreita que fora
substituída por uma larga e fofa, a timidez alegre com que o
homem abrira a porta nesse dia e espiara o rosto de Joana
surpreendendo sua surpresa. O naviozinho sobre as ondas
excessivamente verdes, quase submerso. Entrecerravam-se
as pálpebras e o navio movia-se. Mas tudo deslizara sobre
ela, nada a possuíra... Em resumo apenas uma pausa, uma
só nota, fraca e límpida. Ela que violentara a alma daquele
homem, enchera-a de uma luz cujo mal ele ainda não
compreendera. Ela própria mal fora tocada. Uma pausa, uma
nota leve, sem ressonância...

Agora de novo um círculo de vida que se fechava. E ela na
casa quieta e silenciosa de Otávio; sentindo sua ausência em
cada lugar onde no dia anterior ainda haviam existido seus
objetos e onde agora havia um vazio ligeiramente empoeirado.
Bom que não o vira sair. E bom que, nos primeiros instantes,
ao notar dolorosamente a sua partida, julgara ainda possuir o
amante. "Ao notar a partida de Otávio" ... ? — pensou ela.
Mas por que mentir? Quem partira fora ela mesma e também
Otávio o sabia.

Despia a roupa que vestira para ir ver o homem. A
mulher de lábios úmidos e frouxos deveria estar sofrendo,
sozinha e velha na casa grande. Joana nem sabia o nome
dele... Não desejara sabê-lo, dissera-lhe: quero te conhecer
por outras fontes, seguir para tua alma por outros caminhos;
nada desejo de tua vida que passou, nem teu nome, nem teus
sonhos, nem a história do teu sofrimento; o mistério explica
mais que a claridade; também não indagará3 de mim o que
quer que seja; sou Joana, tu és um corpo vivendo, eu sou um
corpo vivendo, nada mais.

Ó tola, tola, talvez tivesse sofrido então e amado se
soubesse de seu nome, de suas esperanças e dores. É
verdade que o silêncio entre eles fora assim mais perfeito.
Mas de que valia... Apenas corpos vivendo. Não, não, ainda
melhor assim: cada um com um corpo, empurrando-o para
frente, querendo sofregamente vivê-lo. Procurando cheio dó
cobiça subir sobre o outro, pedindo cheio de covardia astu-
ciosa e comovente para existir melhor, melhor. Interrompeu-
se com o vestido na mão, atenta, leve. Tomou consciência da
solidão em que se achava, no centro de uma casa vazia.
Otávio estava com Lídia, sentiu, foragido junto daquela
mulher grávida, cheia de sementes para o mundo.
Aproximou-se da janela, sentiu frio nos ombros nus,
olhou a terra onde as plantas viviam quietas. O globo movia-
se e ela estava sobre ele de pé. Junto a uma janela, o céu por
cima, claro, infinito. Era inútil abrigar-se na dor de cada
caso, revoltar-se contra os acontecimentos, porque os fatos
eram apenas um rasgão no vestido, de novo a seta muda
indicando o fundo das coisas, um rio que seca e deixa ver o
leito nu.

A frescura da tarde arrepiou sua pele, Joana não
conseguiu pensar nitidamente — havia alguma coisa no
jardim que a deslocava para fora de seu centro, fazia-a
vacilar. . . Ficou de sobreaviso. Algo tentava mover-se dentro
dela, respondendo, c pelas paredes escuras de seu corpo
subiam ondas leves, frescas, antigas. Quase assustada, quis
trazer a sensação à consciência, porém cada vez mais era
arrastada para trás numa doce vertigem, por dedos suaves.
Como se fosse de manhã. Perscrutou-se, subitamente atenta
como se tivesse avançado demais. De manhã?

De manhã. Onde estivera alguma vez, com que terra
estranha e milagrosa já pousara para agora sentir-lhe o
perfume? Folhas secas sobre a terra úmida. O coração
apertou-se-lhe devagar, abriu-se, ela não respirou um
momento esperando... Era de manhã, sabia que era de
manhã... Recuando como pela mão frágil de uma criança,
ouviu, abafado como em sonho, galinhas arranhando a terra.
Uma terra quente, seca... o relógio batendo tin-dlen... tin...
dlen... o sol chovendo em pequenas rosas amarelas e verme-
lhas sobre as casas... Deus, o que era aquilo senão ela
mesma? mas quando? não sempre...

As ondas cor-de-rosa escureciam, o sonho fugia. Que foi que
perdi? que foi que perdi? Não era Otávio, já longe, não era o
amante, o homem infeliz nunca existira. Ocorreu-lhe que este
deveria estar preso, afastou o pensamento impaciente,
fugindo, precipitando-se... Como se tudo participasse da
mesma loucura, ouviu subitamente um galo próximo lançar
seu grito violento e solitário. Mas não é de madrugada, disse
trêmula, alisando a testa fria... O galo não sabia que ia
morrer! O galo não sabia que ia morrer! Sim, sim: papai, que
é que eu faço? Ah, perdera o compasso de um minueto...
Sim... o relógio batera tin-dlen, ela erguera-se na ponta dos
pés e o mundo girara muito mais leve naquele momento.
Havia flores em alguma parte? e uma grande vontade de se
dissolver até misturar seus fios com os começos das coisas.
Formar uma só substância, rósea e branda — respirando
mansamente como um ventre que se ergue e se abaixa, que
se ergue e se abaixa... Ou estava errada e aquele sentimento
era atual? O que havia naquele instante longínquo era
alguma coisa verde e vaga, a expectativa da continuação,
uma inocência impaciente ou paciente? espaço vazio... Que
palavra poderia exprimir que naquele tempo alguma coisa
não se condensara e vivia mais livre? Olhos abertos flutuando
entre folhas amarelecendo, nuvens brancas e muito embaixo
o campo estendido, como envolvendo a terra. E agora... Talvez
tivesse aprendido a falar, só isso. Mas as palavras
sobrenadavam no seu mar, indissolúvel, duras. Antes era o
mar puro. E apenas restava do passado, correndo dentro
dela, ligeira e trêmula, um pouco da antiga água entre
cascalhos, sombria, fresca sob as árvores, as folhas mortas e
castanhas forrando as margens. Deus, como ela afundava
docemente na incompreensão de si própria. E como podia,
muito mais ainda, abandonar-se ao refluxo firme e macio. E
voltar. Haveria de reunir-se a si mesma um dia, sem as
palavras duras e solitárias... Haveria de se fundir e ser de
novo o mar mudo brusco forte largo imóvel cego vivo. A morte
a ligaria à infância.

Mas a grade do portão era feita por homens; e lá estava
brilhando sob o sol. Ela notou-a e no choque da súbita
percepção era de novo uma mulher. Estremeceu perdida do
sonho. Quis voltar, quis voltar. Em que pensava? Ah, a morte
a ligaria à infância. A morte a ligaria à infância. Mas agora
seus olhos, voltados para fora, haviam esfriado, agora a morte
era outra, desde que homens faziam a grade do portão e
desde que ela era mulher... A morte... E de súbito a morte era
a cessação apenas... Não! gritou-se assustada, não a morte.

Corria agora à frente de si mesma, já longe de Otávio e
do homem desaparecido. Não morrer. Porque... na verdade
onde estava a morte dentro dela? — indagou-se devagar, com
astúcia. Dilatou os olhos, ainda não acreditando na pergunta
tão nova e cheia de deslumbramento que se permitira
inventar. Caminhou até o espelho, olhou-se — ainda viva! O
pescoço claro nascendo dos ombros delicados, ainda viva! —
procurando-se. Não, ouça! ouça! não existia o começo da
morte dentro de si! E como atravessasse o próprio corpo
violentamente, em busca, sentiu levantar-se de seu interior
uma aragem de saúde, todo ele abrindo-se para respirar...
Não podia pois morrer, pensou então lentamente. Aos
poucos o pensamento frágil tomou uma longa inspiração,
cresceu, tornou-se compacto e inteiriço como um bloco que se
ajustasse dentro de seus contornos. Não havia espaço para
outra presença, para a dúvida. O coração batendo com força,
ouviu-se atenta. Riu alto, um riso trêmulo e gorjeado. Não...
Mas era tão claro... Não morreria porque... porque ela não
podia acabar. Isso, isso. Uma rápida visão, a de um velhinho,
talvez uma mulher, uma mistura de fisionomias indistintas
numa só, balançando a cabeça, negando, envelhecendo. Não,
disse-lhes suavemente do fundo da nova verdade, não... As
fisionomias se esfumaçaram, pois se ela fora sempre. Pois seu
corpo nunca precisara de ninguém, era livre. Pois se ela
andava pelas ruas. Bebia água, abolira Deus, o mundo, tudo.
Não morreria. Tão fácil. Estendeu as mãos sem saber o que
fazer delas depois que sabia. Talvez alisar-se, beijar-se, cheia
de curiosidade e de gratidão reconhecer-se. Já sem se
prender a raciocínios, pareceu-lhe tão ilógico morrer, que se
deteve agora estupefata, cheia de terror. Eterna? Violenta...
Reflexões rapidíssimas e brilhantes como faíscas que se
entrecruzavam eletricamente, fundindo-se mais em sensações
do que pensamentos. Mudava sem transição, em saltos leves,
de plano a plano, cada vez mais altos, claros e tensos. E de
instante a instante caía mais fundo dentro de si própria, em
cavernas de luz leitosa, a respiração vibrante, cheia de medo
e felicidade pela jornada, talvez como as quedas quando se
dorme. A intuição de que eram frágeis aqueles momentos
fazia-a mover-se de leve com receio de se tocar, de agitar e
dissolver aquele milagre, o tenro ser de luz e de ar que
tentava viver dentro dela.

Novamente deslizou para a janela, respirando
cuidadosamente. Mergulhada numa alegria tão fina e intensa
quase como o frio do gelo, quase como a percepção da
música. Ficou de lábios trêmulos, sérios. Eterna, eterna.
Brilhantes e confusos sucediam-se largas terras castanhas,
rios verdes e faiscantes, correndo com fúria e melodia.
Líquidos resplandecentes como fogos derramando-se por
dentro de seu corpo transparente de jarros imensos... Ela
própria crescendo sobre a terra asfixiada, dividindo-se em
milhares de partículas vivas, plenas de seu pensamento, de
sua força, de sua inconsciência... Atravessando a limpidez
sem névoas levemente, andando, voando...
Um pássaro lá fora voou obliquamente!
Atravessou o ar puro e desapareceu na densidade de
uma árvore.
O silêncio ficou palpitando atrás dele em pequenos
sussurros. Há quanto tempo estivera observando-o, sem
sentir.
Ah, então ela morreria.
Sim, que morreria. Simples como o pássaro voara. Inclinou a
cabeça para um lado, suavemente como uma louca mansa:
mas é fácil, tão fácil... nem é inteligente... é a morte que virá,
que virá... Quantos segundos haviam decorrido? Um ou dois.
Ou mais. O frio. Percebeu que por um milagre tomara agora
consciência daqueles pensamentos, que eles eram tão
profundos que haviam decorrido sob outros materiais e
fáceis, simultaneamente... Enquanto ela vivera o sonho,
observara as coisas ao redor, usara-as mentalmente,
nervosamente, como quem crispa as mãos na cortina
enquanto olha a paisagem. Fechou os olhos, docemente
serena e cansada, envolvida em longos véus cinzentos. Um
momento ainda sentiu a ameaça de incompreensão nascendo
do interior longínquo do corpo como um fluxo de sangue.
Eternidade é o não ser, a morte é a imortalidade — boiavam
ainda, soltos restos de tormenta. E ela não sabia mais a que
ligá-los, tão cansada.
Agora a certeza de imortalidade se desvanecera para
sempre. Mais uma vez ou duas na vida — talvez num fim de
tarde, num instante de amor, no momento de morrer — teria
sublime inconsciência criadora, a intuição aguda e cega de
que era realmente imortal para todo o sempre.


[ Perto do Coração Selvagem - C.L. ]