20100407

TECEDEIRA








A VIAGEM


IMPOSSÍVEL EXPLICAR. Afastava-se aos poucos daquela
zona onde as coisas têm forma fixa e arestas, onde tudo tem
um nome sólido e imutável. Cada vez mais afundava na
região líquida, quieta e insondável, onde pairavam névoas
vagas e frescas como as da madrugada. Da madrugada
erguendo-se no campo. Na fazenda do tio acordara no meio
da noite. As tábuas da casa velha rangiam. De lá do primeiro
andar, solta no espaço escuro, afundara os olhos na terra,
procurando as plantas que se torciam enrodilhadas como
víboras. Alguma coisa piscava na noite, espiando, espiando,
olhos de um cão deitado, vigilante. O silêncio pulsava no seu
sangue e ela arfava com ele. Depois a madrugada nasceu
sobre as campinas, rosada, úmida. As plantas eram de novo
verdes e ingênuas, o talo fremente, sensível ao sopro do
vento, nascendo da morte. Já nenhum cão vigiava a fazenda,
agora tudo era um, leve, sem consciência. Havia então um
cavalo solto na campina quieta, a mobilidade de suas pernas
apenas adivinhada. Tudo impreciso, mas de súbito na
imprecisão encontrara uma nitidez que ela apenas adivinhara
e não pudera possuir inteiramente. Perturbada pensara:
tudo, tudo.
As palavras são seixos rolando no rio. Não fora felicidade
o que sentira então, mas o que sentira fora fluido, docemente
amorfo, instante resplandecente, instante sombrio. Sombrio
como a casa que ficava na estrada coberta de árvores
folhudas e poeira do caminho. Nela morava um velho
descalço e dois filhos, grandes e belos reprodutores. O mais
novo tinha olhos, sobretudo olhos, beijara-a uma vez, um dos
melhores beijos que jamais sentira, e alguma coisa erguia-se
no fundo de seus olhos quando ela lhe estendia a mão. Essa
mesma mão que agora repousava sobre o espaldar de uma
cadeira, como um pequeno corpinho aparte, saciado,
negligente. Quando era pequena costumava fazê-la dançar,
como a uma mocinha tenra. Dançara-a mesmo para o homem
que fugia ou fora preso, para o amante — e ele fascinado e
angustiado terminara por apertá-la, beijá-la como se
realmente a mão sozinha fosse uma mulher. Ah, vivera muito,
a fazenda, o homem, as esperas. Verões inteiros, onde as
noites decorriam insones, deixavam-na pálida, os olhos
escuros. Dentro da insônia, várias insônias. Conhecera
perfumes. Um cheiro de verdura úmida, verdura aclarada por
luzes, onde? Ela pisara então na terra molhada dos canteiros,
enquanto o guarda não prestava atenção. Luzes pendendo de
fios, balançando, assim, meditando indiferentes, música de
banda no coreto, os negros fardados e suados. As árvores
iluminadas, o ar frio e artificial de prostitutas. E sobretudo
havia o que não se pode dizer: olhos e boca atrás da cortina
espiando, olhos de um cão piscando a intervalos, um rio
rolando em silêncio e sem saber. Também: as plantas
crescendo de sementes e morrendo. Também:
longe em alguma parte, um pardal sobre um galho e alguém
dormindo. Tudo dissolvido. A fazenda também existia naquele
mesmo instante e naquele mesmo instante o ponteiro do
relógio ia adiante, enquanto a sensação perplexa via-se
ultrapassada pelo relógio.


Dentro de si sentiu de novo acumular-se o tempo vivido.
A sensação era flutuante como a lembrança de uma casa em
que se morou. Não da casa propriamente, mas da posição da
casa dentro de si, em relação ao pai batendo na máquina, em
relação ao quintal do vizinho e ao sol de tardinha. Vago, lon-
gínquo mudo. Um instante... acabou-se. E não podia saber se
depois desse tempo vivido viria uma continuação ou uma
renovação ou nada, como uma barreira. Ninguém impedia
que ela fizesse exatamente o contrário de qualquer das coisas
que fosse fazer: ninguém, nada... não era obrigada a seguir o
próprio começo... Doía ou alegrava? No entanto sentia que
essa estranha liberdade que fora sua maldição, que nunca
ligara nem a si própria, essa liberdade era o que iluminava
sua matéria. E sabia que daí vinha sua vida e seus momentos
de glória e daí vinha a criação de cada instante futuro.

Sobrevivera como um germe ainda úmido entre as
rochas ardentes e secas, pensava Joana. Naquela tarde já
velha — um círculo de vida fechado, trabalho findo —,
naquela tarde em que recebera o bilhete do homem, escolhera
um novo caminho. Não fugir, mas ir. Usar o dinheiro intocado
do pai, a herança até agora abandonada, e andar, andar, ser
humilde, sofrer, abalar-se na base, sem esperanças.
Sobretudo sem esperanças.

Amava sua escolha e a serenidade agora alisava-lhe o
rosto, permitia vir à sua consciência momentos passados,
mortos. Ser uma daquelas pessoas sem orgulho e sem pudor
que a qualquer instante se confiam a estranhos. Assim antes
da morte ligar-se-ia à infância, pela nudez. Humilhar-se
afinal. Como pisar-me bastante, como abrir-me para o mundo
e para a morte?

O navio flutuava levemente sobre o mar como sobre
mansas mãos abertas. Inclinou-se sobre a murada do convés
e sentiu a ternura subindo vagarosamente, envolvendo-a na
tristeza.

No convés os passageiros andavam de um lado para
outro, suportando mal a espera do lanche, ansiosos por
reunir o tempo ao tempo. Alguém disse, a voz magoada: olhe
a chuva! Realmente aproximava-se a névoa cinzenta, olhos
cerrados. Daí a pouco viam-se pingos largos caírem sobre as
tábuas do convés, o barulho de alfinetes tombando, e sobre a
água, furando-lhe imperceptivelmente a superfície. O vento
esfriou, levantaram-se as golas dos casacos, os olhares
subitamente inquietos, fugindo da melancolia como Otávio
com seu medo de sofrer. De profundis...


De profundis? Alguma coisa queria falar... De profundis...
Ouvir-se! prender a fugaz oportunidade que dançava com os
pés leves à beira do abismo. De profundis. Fechar as portas
da consciência. A princípio perceber água corrompida, frases
tontas, mas depois no meio da confusão o fio de água pura
tremulando sobre a parede áspera. De profundis. Aproximar-
se com cuidado, deixar escorrerem as primeiras vagas. De
profundis... Cerrou os olhos, mas apenas viu penumbra. Caiu
mais fundo nos pensamentos, viu imóvel uma figura magra
debruada de vermelho-claro, o desenho com um dedo úmido
de sangue sobre um papel, quando se arranhara e enquanto
o pai procurava iodo. No escuro das pupilas, os pensamentos
alinhados em forma geométrica, um superpondo-se ao outro
como um favo de mel, alguns casulos vazios, informes, sem
lugar para uma reflexão. Formas fofas e cinzentas, como um
cérebro. Mas isso ela não via realmente, procurava imaginar
talvez. De profundis. Vejo um sonho que tive: palco escuro
abandonado, atrás de uma escada. Mas no momento em que
penso "palco escuro" em palavras, o sonho se esgota e fica o
casulo vazio. A sensação murcha e é apenas mental. Até que
as palavras "palco escuro" vivam bastante dentro de mim, na
minha escuridão, no meu perfume, a ponto de se tornarem
uma visão penumbrosa, esgarçada e impalpável, mas atrás
da escada. Então terei de novo uma verdade, o meu sonho.
De profundis. Por que não vem o que quer falar? Estou
pronta. Fechar os olhos. Cheia de flores que se transformam
em rosas à medida que o bicho treme e avança em direção ao
sol do mesmo modo que a visão é muito mais rápida que a
palavra, escolho o nascimento do solo para... Sem sentido. De
profundis, depois virá o fio de água pura. Eu vi a neve tremer
cheia de nuvens rosadas sob a função azul das vísceras
cobertas de moscas ao sol, a impressão cinzenta, a luz verde
e translúcida e fria que existe atrás das nuvens. Fechar os
olhos e sentir como uma cascata branca rolar a inspiração.
De profundis. Deus meu eu vos espero, Deus vinde a mim.
Deus, brotai no meu peito, eu não sou nada e a desgraça cai
sobre minha cabeça e eu só sei usar palavras e as palavras
são mentirosas e eu continuo a sofrer, afinal o fio sobre a
parede escura. Deus vinde a mim e não tenho alegria e minha
vida é escura como a noite sem estrelas e Deus por que não
existes dentro de mim? por que me fizeste separada de ti?
Deus vinde a mim, eu não sou nada, eu sou menos que o pó
e eu te espero todos os dias e todas as noites, ajudai-me, eu
só tenho uma vida e essa vida escorre pelos meus dedos e
encaminha-se para a morte serenamente e eu nada posso
fazer e apenas assisto ao meu esgotamento em cada minuto
que passa, sou só no mundo, quem me quer não me conhece,
quem me conhece me teme e eu sou pequena e pobre, não sa-
berei que existi daqui a poucos anos, o que me resta para
viver é pouco e o que me resta para viver no entanto
continuará intocado e inútil, por que não te apiedas de mim?
que não sou nada, dai-me o que preciso. Deus, dai-me o que
preciso e não sei o que seja, minha desolação é funda como
um poço e eu não me engano diante de mim e das pessoas,
vinde a mim na desgraça e a desgraça é hoje, a desgraça é
sempre, beijo teus pés e o pó dos teus pés, quero me dissolver
em lágrimas, das profundezas chamo por vós, vinde em meu
auxílio que eu não tenho pecados, das profundezas chamo
por vós e nada responde e meu desespero é seco como as
areias do deserto e minha perplexidade me sufoca, humilha-
me, Deus, esse orgulho de viver me amordaça, eu não sou
nada, das profundezas chamo por vós, das profundezas cha-
mo por vós das profundezas chamo por vós das profundezas
chamo por vós...

Agora os pensamentos já se solidificavam e ela respirava
como um doente que tivesse passado pelo grande perigo.
Alguma coisa ainda balbuciava dentro dela, porém seu
cansaço era grande, tranqüilizava seu rosto em máscara Usa
e de olhos vazios. Das profundezas a entrega final. O fim...


Mas das profundezas como resposta, sim como resposta,
avivada pelo ar que ainda penetrava no seu corpo, ergueu-se
a chama queimando lúcida e pura... Das profundezas
sombrias o impulso inclemente ardendo, a vida de novo se
levantando informe, audaz, miserável. Um soluço seco como
se a tivessem sacudido, alegria rutilando em seu peito in-
tensa, insuportável, oh o turbilhão. Sobretudo aclarava-se
aquele movimento constante no fundo do seu ser — agora
crescia e vibrava. Aquele movimento de alguma coisa viva
procurando libertar-se da água e respirar. Também como
voar, sim como voar... andar na praia e receber o vento no
rosto, os cabelos esvoaçantes, a glória sobre a montanha...
Erguendo-se, erguendo-se, o corpo abrindo-se para o ar,
entregando-se à palpitação cega do próprio sangue, notas
cristalinas, tintilantes, faiscando na sua alma... Não havia
desencanto ainda diante de seus próprios mistérios, ó Deus,
Deus, Deus, vinde a mim não para me salvar, a salvação
estaria em mim, mas para abafar-me com tua mão pesada,
com o castigo, com a morte, porque sou impotente e medrosa
em dar o pequeno golpe que transformará todo o meu corpo
nesse centro que deseja respirar e que se ergue, que se
ergue... o mesmo impulso da maré e da gênese, da gênese! o
pequeno toque que no louco deixa viver apenas o pensamento
louco, a chaga luminosa crescendo, flutuando, dominando.
Oh, como se harmonizava com o que pensava e como o que
pensava era grandiosamente, esmagadoramente fatal. Só te
quero, Deus, para que me recolhas como a um cão quando
tudo for de novo apenas sólido e completo, quando o
movimento de emergir a cabeça das águas for apenas uma
lembrança e quando dentro de mim só houver
conhecimentos, que se usaram e se usam e por meio deles de
novo se recebem e se dão coisas, oh Deus.

O que nela se elevava não era a coragem, ela era
substância apenas, menos do que humana, como poderia ser
herói e desejar vencer as coisas? Não era mulher, ela existia e
o que havia dentro dela eram movimentos erguendo-a sempre
em transição. Talvez tivesse alguma vez modificado com sua
força selvagem o ar ao seu redor e ninguém nunca o
perceberia, talvez tivesse inventado com sua respiração uma
nova matéria e não o sabia, apenas sentia o que jamais sua
pequena cabeça de mulher poderia compreender. Tropas de
quentes pensamentos brotavam e alastravam-se pelo seu
corpo assustado e o que neles valia é que encobriam um
impulso vital, o que neles valia é que no instante mesmo de
seu nascimento havia a substância cega e verdadeira criando-
se, erguendo-se, salientando como uma bolha de ar a
superfície da água, quase rompendo-a... Ela notou que ainda
não adormecera, pensou que ainda haveria de estalar em fogo
aberto. Que terminaria uma vez a longa gestação da infância
e de sua dolorosa imaturidade rebentaria seu próprio ser,
enfim, enfim livre! Não, não, nenhum Deus, quero estar só. E
um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão
vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu
fizer será cegamente seguramente inconscientemente,
pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente
lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um
dia virá em que todo meu movimento será criação,
nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de
mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o
que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu
princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um
gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura
submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a
alma de um animal e quando eu falar serão palavras não
pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de
vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! o
que eu disser soará fatal e inteiro! não haverá nenhum
espaço dentro de mim para eu saber que existe o tempo, os
homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de
mim para notar sequer que estarei criando instante por
instante, não instante por instante: sempre fundido, porque
então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei
brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o
que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas,
ah, Deus, e que tudo venha e caia sobre mim, até a
incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos
porque basta me cumprir e então nada impedirá meu
caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou
descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.


* * *



[ Perto do Coração Selvagem - C.L. ]

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