20100407

TECEDEIRA







No DIA SEGUINTE ela recebeu um bilhete do homem,
despedindo-se:
"Tive que ir embora por um tempo, tive que ir, vieram
me buscar, Joana. Eu volto, eu volto, espere por mim. Você
sabe que não sou nada, eu volto. Eu nem chegaria a ver
mesmo e a ouvir se não fosse você. Se me abandonar, ainda
vivo um pouco, o tempo que um passarinho fica no ar sem
bater asas, depois caio, caio e morro. Joana. Só não morro
agora porque volto, não posso explicar mas posso ver através
de você. Deus me ajude e Te ajude, única, eu volto. Nunca
falei tanto a você, mas por obséquio: eu não estou quebrando
a promessa, estou? Eu te entendo tanto tanto, tudo o que
Você precisar de mim eu tenho que fazer. O Senhor te
abençoe, vai aí minha medalhinha com S. Cristóvão e Santa
Teresinha."

Dobrou a carta devagar. Lembrou-se do rosto do
homem, nos últimos dias, seus olhos molhados, turvos, de
gato doente. E ao redor a pele escurecida e arroxeada, como
um crepúsculo. Para onde fora? A vida dele certamente era
confusa. Confusa em fatos. E de certo modo ele lhe parecia
sem ligação com esses fatos. A mulher que o sustentava,
aquela distração em relação a si mesmo, como quem não teve
um começo nem espera um fim... Para onde fora? Sofrerá
muito nos últimos dias. Ela deveria ter-lhe falado,
pretendera-o mesmo, mas depois, distraída e egoísta,
esquecera.
Para onde fora? — indagou-se, os braços vazios. O
turbilhão rodava, rodava, e ela era recolocada no início do
caminho. Olhou o bilhete onde a letra era fina e indecisa, as
frases escritas com cuidado e dificuldade. Reviu o rosto do
amante e amava levemente aqueles traços claros. Fechou os
olhos um instante, sentiu novamente o cheiro que vinha dos
corredores sombrios daquela casa inexplorada, com apenas
um aposento revelado, onde conhecera de novo o amor.
Cheiro de maçãs velhas, doces e velhas, que vinha das
paredes, de suas profundezas. Reviu a cama estreita que fora
substituída por uma larga e fofa, a timidez alegre com que o
homem abrira a porta nesse dia e espiara o rosto de Joana
surpreendendo sua surpresa. O naviozinho sobre as ondas
excessivamente verdes, quase submerso. Entrecerravam-se
as pálpebras e o navio movia-se. Mas tudo deslizara sobre
ela, nada a possuíra... Em resumo apenas uma pausa, uma
só nota, fraca e límpida. Ela que violentara a alma daquele
homem, enchera-a de uma luz cujo mal ele ainda não
compreendera. Ela própria mal fora tocada. Uma pausa, uma
nota leve, sem ressonância...

Agora de novo um círculo de vida que se fechava. E ela na
casa quieta e silenciosa de Otávio; sentindo sua ausência em
cada lugar onde no dia anterior ainda haviam existido seus
objetos e onde agora havia um vazio ligeiramente empoeirado.
Bom que não o vira sair. E bom que, nos primeiros instantes,
ao notar dolorosamente a sua partida, julgara ainda possuir o
amante. "Ao notar a partida de Otávio" ... ? — pensou ela.
Mas por que mentir? Quem partira fora ela mesma e também
Otávio o sabia.

Despia a roupa que vestira para ir ver o homem. A
mulher de lábios úmidos e frouxos deveria estar sofrendo,
sozinha e velha na casa grande. Joana nem sabia o nome
dele... Não desejara sabê-lo, dissera-lhe: quero te conhecer
por outras fontes, seguir para tua alma por outros caminhos;
nada desejo de tua vida que passou, nem teu nome, nem teus
sonhos, nem a história do teu sofrimento; o mistério explica
mais que a claridade; também não indagará3 de mim o que
quer que seja; sou Joana, tu és um corpo vivendo, eu sou um
corpo vivendo, nada mais.

Ó tola, tola, talvez tivesse sofrido então e amado se
soubesse de seu nome, de suas esperanças e dores. É
verdade que o silêncio entre eles fora assim mais perfeito.
Mas de que valia... Apenas corpos vivendo. Não, não, ainda
melhor assim: cada um com um corpo, empurrando-o para
frente, querendo sofregamente vivê-lo. Procurando cheio dó
cobiça subir sobre o outro, pedindo cheio de covardia astu-
ciosa e comovente para existir melhor, melhor. Interrompeu-
se com o vestido na mão, atenta, leve. Tomou consciência da
solidão em que se achava, no centro de uma casa vazia.
Otávio estava com Lídia, sentiu, foragido junto daquela
mulher grávida, cheia de sementes para o mundo.
Aproximou-se da janela, sentiu frio nos ombros nus,
olhou a terra onde as plantas viviam quietas. O globo movia-
se e ela estava sobre ele de pé. Junto a uma janela, o céu por
cima, claro, infinito. Era inútil abrigar-se na dor de cada
caso, revoltar-se contra os acontecimentos, porque os fatos
eram apenas um rasgão no vestido, de novo a seta muda
indicando o fundo das coisas, um rio que seca e deixa ver o
leito nu.

A frescura da tarde arrepiou sua pele, Joana não
conseguiu pensar nitidamente — havia alguma coisa no
jardim que a deslocava para fora de seu centro, fazia-a
vacilar. . . Ficou de sobreaviso. Algo tentava mover-se dentro
dela, respondendo, c pelas paredes escuras de seu corpo
subiam ondas leves, frescas, antigas. Quase assustada, quis
trazer a sensação à consciência, porém cada vez mais era
arrastada para trás numa doce vertigem, por dedos suaves.
Como se fosse de manhã. Perscrutou-se, subitamente atenta
como se tivesse avançado demais. De manhã?

De manhã. Onde estivera alguma vez, com que terra
estranha e milagrosa já pousara para agora sentir-lhe o
perfume? Folhas secas sobre a terra úmida. O coração
apertou-se-lhe devagar, abriu-se, ela não respirou um
momento esperando... Era de manhã, sabia que era de
manhã... Recuando como pela mão frágil de uma criança,
ouviu, abafado como em sonho, galinhas arranhando a terra.
Uma terra quente, seca... o relógio batendo tin-dlen... tin...
dlen... o sol chovendo em pequenas rosas amarelas e verme-
lhas sobre as casas... Deus, o que era aquilo senão ela
mesma? mas quando? não sempre...

As ondas cor-de-rosa escureciam, o sonho fugia. Que foi que
perdi? que foi que perdi? Não era Otávio, já longe, não era o
amante, o homem infeliz nunca existira. Ocorreu-lhe que este
deveria estar preso, afastou o pensamento impaciente,
fugindo, precipitando-se... Como se tudo participasse da
mesma loucura, ouviu subitamente um galo próximo lançar
seu grito violento e solitário. Mas não é de madrugada, disse
trêmula, alisando a testa fria... O galo não sabia que ia
morrer! O galo não sabia que ia morrer! Sim, sim: papai, que
é que eu faço? Ah, perdera o compasso de um minueto...
Sim... o relógio batera tin-dlen, ela erguera-se na ponta dos
pés e o mundo girara muito mais leve naquele momento.
Havia flores em alguma parte? e uma grande vontade de se
dissolver até misturar seus fios com os começos das coisas.
Formar uma só substância, rósea e branda — respirando
mansamente como um ventre que se ergue e se abaixa, que
se ergue e se abaixa... Ou estava errada e aquele sentimento
era atual? O que havia naquele instante longínquo era
alguma coisa verde e vaga, a expectativa da continuação,
uma inocência impaciente ou paciente? espaço vazio... Que
palavra poderia exprimir que naquele tempo alguma coisa
não se condensara e vivia mais livre? Olhos abertos flutuando
entre folhas amarelecendo, nuvens brancas e muito embaixo
o campo estendido, como envolvendo a terra. E agora... Talvez
tivesse aprendido a falar, só isso. Mas as palavras
sobrenadavam no seu mar, indissolúvel, duras. Antes era o
mar puro. E apenas restava do passado, correndo dentro
dela, ligeira e trêmula, um pouco da antiga água entre
cascalhos, sombria, fresca sob as árvores, as folhas mortas e
castanhas forrando as margens. Deus, como ela afundava
docemente na incompreensão de si própria. E como podia,
muito mais ainda, abandonar-se ao refluxo firme e macio. E
voltar. Haveria de reunir-se a si mesma um dia, sem as
palavras duras e solitárias... Haveria de se fundir e ser de
novo o mar mudo brusco forte largo imóvel cego vivo. A morte
a ligaria à infância.

Mas a grade do portão era feita por homens; e lá estava
brilhando sob o sol. Ela notou-a e no choque da súbita
percepção era de novo uma mulher. Estremeceu perdida do
sonho. Quis voltar, quis voltar. Em que pensava? Ah, a morte
a ligaria à infância. A morte a ligaria à infância. Mas agora
seus olhos, voltados para fora, haviam esfriado, agora a morte
era outra, desde que homens faziam a grade do portão e
desde que ela era mulher... A morte... E de súbito a morte era
a cessação apenas... Não! gritou-se assustada, não a morte.

Corria agora à frente de si mesma, já longe de Otávio e
do homem desaparecido. Não morrer. Porque... na verdade
onde estava a morte dentro dela? — indagou-se devagar, com
astúcia. Dilatou os olhos, ainda não acreditando na pergunta
tão nova e cheia de deslumbramento que se permitira
inventar. Caminhou até o espelho, olhou-se — ainda viva! O
pescoço claro nascendo dos ombros delicados, ainda viva! —
procurando-se. Não, ouça! ouça! não existia o começo da
morte dentro de si! E como atravessasse o próprio corpo
violentamente, em busca, sentiu levantar-se de seu interior
uma aragem de saúde, todo ele abrindo-se para respirar...
Não podia pois morrer, pensou então lentamente. Aos
poucos o pensamento frágil tomou uma longa inspiração,
cresceu, tornou-se compacto e inteiriço como um bloco que se
ajustasse dentro de seus contornos. Não havia espaço para
outra presença, para a dúvida. O coração batendo com força,
ouviu-se atenta. Riu alto, um riso trêmulo e gorjeado. Não...
Mas era tão claro... Não morreria porque... porque ela não
podia acabar. Isso, isso. Uma rápida visão, a de um velhinho,
talvez uma mulher, uma mistura de fisionomias indistintas
numa só, balançando a cabeça, negando, envelhecendo. Não,
disse-lhes suavemente do fundo da nova verdade, não... As
fisionomias se esfumaçaram, pois se ela fora sempre. Pois seu
corpo nunca precisara de ninguém, era livre. Pois se ela
andava pelas ruas. Bebia água, abolira Deus, o mundo, tudo.
Não morreria. Tão fácil. Estendeu as mãos sem saber o que
fazer delas depois que sabia. Talvez alisar-se, beijar-se, cheia
de curiosidade e de gratidão reconhecer-se. Já sem se
prender a raciocínios, pareceu-lhe tão ilógico morrer, que se
deteve agora estupefata, cheia de terror. Eterna? Violenta...
Reflexões rapidíssimas e brilhantes como faíscas que se
entrecruzavam eletricamente, fundindo-se mais em sensações
do que pensamentos. Mudava sem transição, em saltos leves,
de plano a plano, cada vez mais altos, claros e tensos. E de
instante a instante caía mais fundo dentro de si própria, em
cavernas de luz leitosa, a respiração vibrante, cheia de medo
e felicidade pela jornada, talvez como as quedas quando se
dorme. A intuição de que eram frágeis aqueles momentos
fazia-a mover-se de leve com receio de se tocar, de agitar e
dissolver aquele milagre, o tenro ser de luz e de ar que
tentava viver dentro dela.

Novamente deslizou para a janela, respirando
cuidadosamente. Mergulhada numa alegria tão fina e intensa
quase como o frio do gelo, quase como a percepção da
música. Ficou de lábios trêmulos, sérios. Eterna, eterna.
Brilhantes e confusos sucediam-se largas terras castanhas,
rios verdes e faiscantes, correndo com fúria e melodia.
Líquidos resplandecentes como fogos derramando-se por
dentro de seu corpo transparente de jarros imensos... Ela
própria crescendo sobre a terra asfixiada, dividindo-se em
milhares de partículas vivas, plenas de seu pensamento, de
sua força, de sua inconsciência... Atravessando a limpidez
sem névoas levemente, andando, voando...
Um pássaro lá fora voou obliquamente!
Atravessou o ar puro e desapareceu na densidade de
uma árvore.
O silêncio ficou palpitando atrás dele em pequenos
sussurros. Há quanto tempo estivera observando-o, sem
sentir.
Ah, então ela morreria.
Sim, que morreria. Simples como o pássaro voara. Inclinou a
cabeça para um lado, suavemente como uma louca mansa:
mas é fácil, tão fácil... nem é inteligente... é a morte que virá,
que virá... Quantos segundos haviam decorrido? Um ou dois.
Ou mais. O frio. Percebeu que por um milagre tomara agora
consciência daqueles pensamentos, que eles eram tão
profundos que haviam decorrido sob outros materiais e
fáceis, simultaneamente... Enquanto ela vivera o sonho,
observara as coisas ao redor, usara-as mentalmente,
nervosamente, como quem crispa as mãos na cortina
enquanto olha a paisagem. Fechou os olhos, docemente
serena e cansada, envolvida em longos véus cinzentos. Um
momento ainda sentiu a ameaça de incompreensão nascendo
do interior longínquo do corpo como um fluxo de sangue.
Eternidade é o não ser, a morte é a imortalidade — boiavam
ainda, soltos restos de tormenta. E ela não sabia mais a que
ligá-los, tão cansada.
Agora a certeza de imortalidade se desvanecera para
sempre. Mais uma vez ou duas na vida — talvez num fim de
tarde, num instante de amor, no momento de morrer — teria
sublime inconsciência criadora, a intuição aguda e cega de
que era realmente imortal para todo o sempre.


[ Perto do Coração Selvagem - C.L. ]

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