
Fechou os olhos mais intensamente, mordeu os lábios,
sofrendo sem saber por quê. Abriu-os em seguida e no quarto
— o quarto vazio! — subitamente não descobriu a marca da
passagem de Joana. Como se fosse mentira a sua
existência... Ergueu-se. Vem, gritou qualquer coisa nele
ardente e mortal. Vem, repetiu baixinho, cheio de temor, o
olhar perdido. Vem...
Passos quase silenciosos pisavam lá fora as folhas
secas. De novo Joana vinha... de novo ela o ouvia de longe.
Ele quedou-se de pé junto da cama, os olhos ausentes,
um cego ouvindo música distante. Aproximava-se,
aproximava-se... Joana. Seus passos eram cada vez mais
uma realidade, a única realidade. Joana. Com a
subitaneidade de uma punhalada, a dor estalou dentro de
seu corpo, iluminou-o de alegria e perplexidade.
Quando a porta se abriu para Joana ele deixou de
existir. Escorregara muito fundo dentro de si, pairava na
penumbra de sua própria floresta insuspeita. Movia-se agora
de leve e seus gestos eram fáceis e novos. As pupilas
escurecidas e alargadas, de súbito um animal fino, assustado
como uma corça. No entanto a atmosfera tornara-se tão
lúcida que ele perceberia qualquer movimento de coisa viva
ao seu redor. E seu corpo era apenas memória fresca, onde se
moldariam como pela primeira vez as sensações.
O pequeno navio branco flutuava sobre grossas ondas,
verdes, brilhantes e mal feitas — via ela deitada, espiando o
pequeno quadro da parede.
— No dia 3, continuou Joana e fazia a voz clara, leve,
com pequenos intervalos redondos, no dia 3 houve uma
grande parada em benefício dos que nasciam. Era muito
engraçado ver as pessoas cantando e empunhando bandeiras
cheias de todas as não-cores. Então ergueu-se um homem
tênue e rápido como a brisa que sopra quando a gente está
triste e disse de longe: eu. Ninguém ouviu, mas ele estava
quase satisfeito. Foi quando se ergueu a grande ventania que
sopra do noroeste e caminhou sobre todos com os grandes
pés fogosos. Todos voltaram para suas casas, murchos,
crestados de calor. Tiraram os sapatos, desafogaram os
colarinhos. Todos os sangues corriam lentamente,
pesadamente em todas as veias. E um grande não-ter-o-que-
fazer arrastava-se nas almas. Nesse ínterim a terra conti-
nuava a rodar, Foi quando nasceu um menino chamado um
nome. Ele era lindo, o menino. Grandes olhos que viam,
lábios finos que sentiam, rosto magro que sentia, testa alta
que sentia. A cabeça grande. Ele caminhava como quem sabe
exatamente o lugar, esgueirando-se sem esforço entre a
multidão. Quem fosse atrás dele chegaria. Quando ele se
emocionava, quando se surpreendia, balançava a cabeça,
assim, devagar, em não, como quem recebe mais do que
esperou. Ele era lindo. E sobretudo estava vivo. E sobretudo
eu o amava. Eu nascia, e meu coração era novo quando eu o
via. Eu nascia, eu nascia, eu nascia. Agora um verso. O que
eu quero, meu bem, é te ver sempre, meu bem. Como te vi
hoje, meu bem. Mesmo que morreres, meu bem. Outro: Ouvi
um dia uma flor cantando e tranqüilamente me alegrei;
depois me aproximei e, milagre, não era a flor que cantava
mas um passarinho sobre a flor.
Joana falava sonolentamente no fim. Pelos olhos
semicerrados o navio flutuava torto no quadro, as coisas do
quarto espichavam-se, luminosas, o fim de uma dando a mão
ao começo de outra. Pois se ela já sabia "que tudo era um",
por que continuar a ver e a viver? O homem, de olhos
fechados, mergulhara no seu ombro e ouvia sonhando sem
dormir. A intervalos ela escutava dentro do silêncio vivo da
tarde de verão movimentos abafados e vagarosos no assoalho
frouxo de madeira. Era a mulher, a mulher, aquela mulher.
Nas primeiras vezes em que Joana viera à casa grande,
desejara perguntar ao homem assim: ela é agora como sua
mãe? não é mais sua amante? mesmo eu existindo ela ainda
quer você em casa? Mas adiara sempre. No entanto, tão forte
era a presença da outra na casa, que os três formavam um
par. E jamais Joana e o homem se sentiam inteiramente sós.
Joana também já quisera perguntar à própria mulher: mas
onde, mas onde se desenrola a alma atrás de vocês? Isso
porém fora um pensamento antigo. Porque um dia a
enxergara de relance, as costas gordas concentradas num
bloco indissolúvel de angústia sob o vestido de renda preta.
Percebera-a também em outros momentos, rápidos, passando
de um quarto à sala, sorrindo depressa, escapando horrível.
Então Joana descobrira que ela era alguém vivo e negro.
Orelhas grossas, tristes e pesadas, com um fundo escuro de
caverna. O olhar terno, fugitivo e risonho de prostituta sem
glória. Os lábios úmidos, emurchecidos, grandes, tão
pintados. Como ela devia amar o homem. Os cabelos fofos
eram ralos e avermelhados pelas pinturas sucessivas. E o
quarto onde o homem dormia e recebia Joana, aquele quarto
com as cortinas, quase sem poeira, ela o arranjara
certamente. Como quem cose a mortalha do filho. Joana,
aquela mulher e a esposa do professor. O que as ligava
afinal? As três graças diabólicas.
— Amêndoas... — disse Joana, voltando-se para o
homem. O mistério e a doçura das palavras: amêndoa... ouça,
pronunciada com cuidado, a voz na garganta, ressoando nas
profundezas da boca. Vibra, deixa-me longa e estirada e
curva como um arco . Amêndoa amarga, venenosa e pura.
As três graças amargas, venenosas e puras.
— Conte aquilo... — disse-lhe o homem.
— O quê?
— Do marinheiro. Se amares um marinheiro terás
amado o mundo inteiro.
— Horrível... — riu Joana. Eu sei: eu mesma disse que
deveria ser tão verdade que já nascia com rima. Pois já nem
me lembro mais.
— Que fazia domingo na praça. O cais do porto. . . —
ajudou o homem.
Um dia, rompendo a quietude em que ficava junto de
Joana ele tentara falar:
— Eu sempre não fui nada.
— Sim, respondeu ela.
— Mas tudo o que houve não faria você ir embora...
— Não.
— Mesmo essa mulher... essa casa... É diferente, você
sabe?
— Sei.
— Sempre fui como um mendigo, eu sei. Mas nunca
pedia nada, nem precisava, nem sabia. Você veio, sabe? Eu
pensava antes: nada era ruim. Mas agora... Por que você me
diz sempre coisas tão loucas, juro, não posso...
Ela então se levantara sobre o cotovelo, subitamente
séria, o rosto debruçado sobre ele:
— Você acredita em mim?
— Sim... — respondeu ele assustado com sua violência.
— Você sabe que eu não minto, que nunca minto,
mesmo quando... mesmo sempre? Sente? Diga, diga. O resto
então não importaria, nada importaria... Quando digo essas
coisas... essas coisas loucas, quando não quero saber de seu
passado, e não quero contar sobre mim, quando eu invento
palavras... Quando eu minto você sente que eu não minto?
— Sim, sim...
Ela deixara-se cair de novo sobre a cama, os olhos
fechados, cansada. Não importa, não importa se depois ele
não acreditar, se correr de mim como o professor. Por
enquanto junto dele podia pensar. E por enquanto também é
tempo. Abriu os olhos, sorriu para ele. Um menino, é isso que
ele é. Deve ter tido muitas mulheres, muito amado, atraente,
com os grandes cílios, os olhos frios. Até agora foi mais
consistente, eu o dissolvi um pouco. Aquela mulher espera
que eu vá embora um dia finalmente. Que ele volte.
— Que fazia domingo na praça? A praça é larga e
solitária, disse afinal lentamente procurando recordar e
atender ao pedido do homem. Sim... Tanto sol, preso ao chão
como se nascesse dele. O mar, a barriga do mar, calada,
arquejante. Os peixes em domingo, volteando rapidamente as
caudas e serenos continuando a abrir caminho. Um navio
parado. Domingo. Os marinheiros passeando pelo cais, pela
praça. Um vestido cor-de-rosa aparecendo e desaparecendo
numa esquina. As árvores cristalizadas em domingo —
domingo é qualquer coisa como árvores de Natal —, brilhando
silenciosas, contendo, assim, assim, a respiração. Um homem
passando com uma mulher de vestido novo. O homem quer
não ser nada, anda ao lado dela olhando-a quase de frente,
indagando, indagando: diga, mande, pise. Ela não
respondendo, sorrindo, puro domingo. Satisfação, satisfação.
Pura tristeza sem mágoa. Tristeza que parece vir de trás da
mulher de cor-de-rosa. Tristeza de domingo no cais do porto,
os marinheiros emprestados à terra. Essa tristeza leve é a
constatação de viver. Como não se sabe de que modo usar
esse conhecimento súbito, vem a tristeza .
— Dessa vez a história foi diferente — queixou-se ele
depois de uma pausa.
— Ê que estou apenas contando o que vi e não o que
vejo. Não sei repetir, só sei uma vez as coisas — explicou-lhe
ela.
— Foi diferente, mas tudo o que você vê é perfeito .
Ele usava ao redor do pescoço uma correntezinha como
uma pequena medalha de ouro. De um lado Santa Teresinha,
de outro S. Cristóvão. Ele era devoto dos dois:
— Mas não ligo muito a coisas de santos. Só às vezes.
Ela contara-lhe certa vez que em pequena podia brincar
uma tarde inteira com uma palavra. Ele pedia-lhe então para
inventar novas. Nunca ela o queria tanto como nesses
momentos.
— Diga de novo o que é Lalande — implorou a Joana.
— É como lágrimas de anjo. Sabe o que é lágrimas de
anjo? Uma espécie de narcisinho, qualquer brisa inclina ele
de um lado para outro. Lalande é também mar de
madrugada, quando nenhum olhar ainda viu a praia, quando
o sol não nasceu. Toda a vez que eu disser: Lalande, você
deve sentir a viração fresca e salgada do mar, deve andar ao
longo da praia ainda escurecida, devagar, nu. Em breve você
sentirá Lalande... Pode crer em mim, eu sou uma das pessoas
que mais conhecem o mar.
Ele não sabia em instantes se vivia ou se estava morto,
se tudo o que tinha era pouco ou demais. Quando ela falava,
inventava doida, doida! A plenitude enchia-o tão grande como
um vazio e sua angústia era a da limpidez do largo espaço
acima das águas. Por que ficava estarrecido diante dela, estu-
pefato como uma parede branca ao luar? Ou talvez fosse
acordar de repente, gritar: quem é esta? ela é demais na
minha vida! não posso... quero voltar... Mas ele não o poderia
mais — sentia subitamente e assustava-se perdido.
— Querido — disse ela interrompendo os pensamentos
do homem.
— Sim, sim... — Ele escondeu o rosto naquele ombro macio e
ela ficou sentindo sua respiração percorrê-la de ida e de volta,
de ida e de volta. Eles dois eram duas criaturas. Que mais
importa? — pensava ela. Ele moveu-se, ajeitou a cabeça na
sua carne como... como uma ameba, um protozoário
procurando cegamente o núcleo, o centro vivo. Ou como uma
criança. Lá fora o mundo se escoava, e o dia, o dia, depois a
noite, depois o dia. Alguma vez haveria de partir, de separar-
se de novo. Ele também. Dela? Sim, em breve ela se tornaria
pesada a ele com seu excesso de milagre. Como as outras
pessoas, inexplicavelmente envergonhado de si próprio
ansiaria por ir embora. Mas uma vingança: ele não se
libertaria inteiramente. Terminaria maravilhado consigo
mesmo, comprometendo-se, cheio de uma responsabilidade
indefinida e angustiosa. Joana sorriu. Ele terminaria por
odiá-la, como se ela exigisse dele alguma coisa. Como sua tia,
seu tio que a respeitavam contudo, pressentindo que ela não
amava os seus prazeres. Confusamente supunham-na
superior e desprezavam-na. Oh Deus, de novo estava
recordando, contando a si mesma sua história, justificando-
se... Poderia pedir dados ao homem: eu sou assim? Mas o que
sabia ele? Afundava o rosto no seu ombro, escondia-se,
possivelmente feliz naquele instante. Sacudi-lo, contar-lhe;
homem assim era Joana, homem. E assim fez-se mulher e
envelheceu. Acreditava-se muito poderosa e sentia-se infeliz.
Tão poderosa que imaginava ter escolhido os caminhos antes
de neles penetrar — e apenas com o pensamento. Tão infeliz
que, julgando-se poderosa, não sabia o que fazer de seu
poder e via cada minuto perdido porque não o orientara para
um fim. Assim cresceu Joana, homem, fina como um
pinheiro, muito corajosa também. Sua coragem desenvolvera-
se dentro do quarto e à luz fechada mundos luminosos se
formavam sem medo e sem pudor. Ela aprendeu desde cedo a
pensar e como não vira de perto nenhum ser humano senão a
si mesma, deslumbrou-se, sofreu, viveu um orgulho doloroso,
às vezes leve mas quase sempre difícil de se carregar.
Como terminar a história de Joana? Se pudesse colher e
acrescentar o olhar que surpreendera em Lídia: ninguém te
amará... Sim, terminar assim: apesar de ser das criaturas
soltas e sozinhas no mundo, ninguém jamais pensou em dar
alguma coisa a Joana. Não amor, entregavam-lhe sempre
outro sentimento qualquer. Viveu sua vida, ávida como uma
virgem — isso para o túmulo. Fez-se muitas perguntas, mas
nunca pôde se responder: parava para sentir. Como nasceu
um triângulo? antes em idéia? ou esta veio depois de
executada a forma? um triângulo nasceria fatalmente? as
coisas eram ricas . — Desejaria deter seu tempo na pergunta.
Mas o amor a invadia. Triângulo, círculo, linhas retas...
harmônico e misterioso como um arpejo. Onde se guarda a
música enquanto não soa? — indagava-se. E rendida
respondia: que façam harpa de meus nervos quando eu
morrer.
O fim da lucidez de Joana misturou-se ao navio torto
sobre as ondas, movendo-se. Bastava menear a cabeça para
que as ondas a acompanhassem. Mas ela tivera coisa, ah isso
tivera. Um marido, seios, um amante, uma casa, livros,
cabelos cortados, uma tia, um professor. Titia, ouça-me, eu
conheci Joana, de quem lhe falo agora. Era uma mulher fraca
em relação às coisas. Tudo lhe parecia às vezes preciso
demais, impossível de ser tocado. E, às vezes, o que usavam
como ar de respirar, era peso e morte para ela. Veja se
compreende a minha heroína, titia, escute. Ela é vaga e
audaciosa. Ela não ama, ela não é amada. Você terminaria
notando-o como Lídia, outra mulher —uma jovem mulher
cheia do próprio destino —, observou-o. No entanto o que há
dentro de Joana é alguma coisa mais forte que o amor que se
dá e o que há dentro dela exige mais do que o amor que se
recebe. Compreende, titia? Eu não a chamaria de herói como
eu mesma prometera a papai. Pois nela havia um medo
enorme. Um medo anterior a qualquer julgamento e
compreensão. — Me ocorreu agora isso: quem sabe, talvez a
crença na sobrevivência futura venha de se notar que a vida
sempre nos deixa intocados. — Compreende, titia? — esqueça
a interrupção da vida futura — compreende? Vejo teus olhos
abertos, me olhando com medo, com desconfiança, mas
querendo mesmo assim, com tua feminilidade de velha, agora
morta, é verdade, agora morta, gostar de mim, passando por
cima de minha aspereza. Pobre!, a maior revolta que senti em
ti, além das que eu provocava, pode ser resumida naquele
frase quase diária que ainda ouço, misturada ao teu cheiro
que não posso esquecer: "oh, não poder sair à rua na roupa
em que se está!" Que mais te contar? Tenho os cabelos
cortados, castanho, às vezes uso franja. Vou morrer um dia.
Nasci também. Havia o quarto com os dois. Ele era bonito. O
quarto rodava um pouco. Tornava-se transparente e morno
um véu um véu se aproximando vindo. Eles três formavam
um casal e a quem contar isso? Poderia adormecer porque o
homem nunca dormia e vigiaria como a chuva caindo. Otávio
também era bonito, olhos. Esse era uma criança uma ameba
flores brancura mornidão como o sono por enquanto é tempo
por enquanto é vida mesmo que mais tarde... Tudo como a
terra uma criança Lídia uma criança Otávio terra de
profundis...
(Perto do Coração Selvagem - C.L.)
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