20081130

Ver, Saber





"Ver, Saber

“A avidez dos garimpeiros pelo ouro – chafurdando dia e noite na lama, ‘comendo a terra da floresta como espíritos-queixada (warëripë)’ – e as febres mortais que espalham propõem um trágico enigma para os Yanomami. Davi atribui essa violência predatória, em primeiro lugar, à ignorância dos brancos, à ‘escuridão confusa’ de seu pensamento ‘plantado nas mercadorias’. Dessa maneira, ele sublinha o antagonismo irredutível entre dois modos de conhecimento, o dos ‘estrangeiros, inimigos’, que tem suas raízes na escrita, e o dos Yanomami, fundado na visão – conhecimento xamânico:


Nós, Yanomami, que somos xamãs, vemos-conhecemos (taai-). Vemos a floresta. Depois de tomar o poder alucinógeno de suas árvores, nós vemos. Fazemos os espíritos da floresta, os espíritos xamânicos, dançarem suas danças de apresentação. Vemos com nossos olhos. Depois de ‘morrer’ sob o poder do alucinógeno, vemos a ‘imagem essencial’ da floresta. Vemos o céu sobrenatural. Nossos ancestrais o viam antes e nós continuamos a vê-lo. Nós não estudamos nem vamos à escola. Vocês, brancos, vocês mentem. Não vêem – conhecem – as coisas. Vocês acham que as conhecem, mas só vêem os desenhos de sua escrita.

(...)

Os garimpeiros são hostis a nós porque são como espíritos maléficos; são filhos de comedores de terra-floresta. Eles dizem que nós somos ignorantes, mas estão errados. É o contrário. Somos nós que sabemos das coisas e que protegemos a floresta. Somos amigos da floresta porque nossos espíritos xamânicos são os seus guardiões. (...) São eles que nos fazem pensar direito e ficar lúcidos. Quando estão perto de nós, fazem crescer nossa mente, fazem-na ir longe. Nosso pensamento não é fixado em outras palavras. É fixado na floresta, nos espíritos xamânicos. Os brancos não conhecem esses espíritos, nem a imagem do princípio de fertilidade da floresta. Eles acham que ela só existe à toa, por isso a destroem.”(Bruce Albert / David Kopenawa, xamã yanomami)

Um comentário:

  1. Que imagens! Pena que são tão raras: crianças aprendendo com naturalidade e pássaros fantásticos! Vendo-as é inconcebível discernir que caminhamos do caos para a ordem.

    Nada mais se cria, tudo se transforma. Obras divinas, o homem, nunca pode fazê-las senão pela própria vontade divina em e por amor.

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