20081206

Os doze giros da roda do Dharma


O presente do Buda:

“A roda do Dharma foi posta em movimento doze vezes – três vezes para cada uma das Quatro Nobres Verdades. Para entender essas Quatro Nobres Verdades, não apenas intelectualmente, mas através da experiência, temos que praticar os doze giros da roda.

A primeira volta é chamada de ‘Reconhecimento’. Sentimos que alguma coisa está errada, mas não sabemos exatamente o que é. Tentamos escapar e não conseguimos. Também tentamos negar o sofrimento, mas ele persiste. O Buda disse que sofrer, e não saber que se está sofrendo, é mais doloroso que o peso suportado pela mula que carrega um grande fardo. Antes de mais nada, precisamos reconhecer que sofremos, e a seguir temos que determinar se a causa do sofrimento é física, psicológica ou fisiológica. Nosso sofrimento tem que primeiro ser identificado.

Reconhecer e identificar o sofrimento é como o trabalho de um médico diagnosticando uma doença. Ele diz: ‘Quando eu aperto aqui, dói?”, nós respondemos: ‘Sim, essa é a minha dor. Isso me aconteceu.’ As feridas em nosso coração passam a ser objeto de nossa meditação. Nos a mostramos ao médico, e também ao Buda, o que significa que mostramos a nós mesmos. Nosso sofrimento está em nós, e devemos tratá-lo com bondade e sem violência. Precisamos abraçar nosso medo, nosso ódio, angústia, ou raiva. ‘Meu querido sofrimento, eu sei que você está aí. Eu estou aqui e vou tomar conta de você.’ Assim, paramos de fugir da dor e identificamos, reconhecemos com a coragem e a ternura de que somos capazes.

O segundo giro da roda chama-se ‘Encorajamento’. Depois de identificar e reconhecer a nossa dor, olhamos para ela sem pressa, com atenção, tentando compreender sua verdadeira natureza, para tentar poder conhecer suas causas. Depois de observar os sintomas, o médico diz: ‘Vou pensar profundamente sobre esse caso. Essa doença pode ser compreendida.’ E talvez demore uma semana, fazendo exames e perguntando o que comemos, quais são nossas atitudes, como passamos nosso tempo, etc. Mas ele está determinado a entender a doença.

Todos os nossos sofrimentos – depressão, doença, um relacionamento difícil ou medo – necessitam ser entendidos e, assim como um médico, tomaremos a decisão de entender o que está acontecendo. Ao fazer isso, vemos que as causas do sofrimento são passíveis de serem reconhecidas, e nos esforçaremos para chegar ao fundo da questão. Nesse estágio, nossa prática ainda pode sofrer dificuldades’.

O terceiro giro da roda é a ‘Realização’ e pode ser expresso como ‘Este sofrimento é passível de ser entendido.’ Durante o segundo giro, nós entendemos os esforços feitos. Um médico nos diz o nome e as características de nossa doença. Depois de estudar, refletir e praticar a Primeira Nobre Verdade, entendemos que finalmente vamos parar de fugir da dor. Agora já podemos dar ao nosso sofrimento um nome específico, e identificar suas características próprias. Isso já nos proporciona alguma felicidade e alegria, desta vez sem ‘dificuldades’.

Mesmo assim, depois de diagnosticar a nossa doença continuamos pro algum tempo a gerar sofrimento. Lançamos gasolina ao fogo através de palavras, pensamentos e atos, muitas vezes sem perceber. O primeiro giro da roda da Segunda Nobre Verdade é o ‘Reconhecimento’: eu continuo a criar sofrimento. O Buda diz: ‘Quando algo passa a existir, temos que reconhecer as presença e observar com profundidade sua natureza. Quando contemplamos, descobrimos os tipos de nutrientes que contribuíram para produzir sofrimento no passado, e que ainda hoje continuam a alimentá-lo’. A seguir ele enunciou os quatro tipos de nutrientes capazes de nos conduzir à felicidade ou ao sofrimento: alimento, impressões sensoriais, intenção e consciência.

O primeiro nutriente é o alimento. Aquilo que comemos ou bebemos pode promover o sofrimento mental ou físico. Temos que ser capazes de discernir entre o que é saudável e o que nos prejudica. Precisamos praticar a Compreensão Correta ao fazermos compras, cozinharmos e nos alimentarmos. O Buda nos deu um exemplo sobre isso: Um jovem casal e seu filho de dois anos tentavam atravessar o deserto, e a comida acabou. Depois de muita reflexão, os pais entenderam que para sobreviver teriam que matar a criança e comer sua carne. Calcularam que se comessem a cada dia um certo percentual da carne da criança e carregassem o restante nas costas teriam o suficiente para o resto da jornada. Mas a cada pedaço de carne que comiam, eles choravam mais e mais. Depois de contar a história, o Buda perguntou: ‘Caros amigos, vocês acham que o jovem casal teve prazer em comer a carne de seu filho?’’Não senhor, não seria possível ter prazer em algo assim.’ O Buda disse: ‘Entretanto, muitas pessoas comem a carne de seus pais, seus filhos e seus netos, sem ter muita consciência disso’.

Grande parte de nosso sofrimento resulta de não prestarmos atenção ao nosso corpo e ao que comemos. Temos que desenvolver formas de comer que preservem a saúde e o bem estar de nosso corpo e de nosso espírito. Quando fumamos, bebemos ou consumidos toxinas em excesso, estamos comemos nossos próprios pulmões, fígado e coração. Se temos filhos e assim mesmo continuamos a fazer essas coisas, estamos comendo a carne de nossos filhos. Eles necessitam de pais fortes e saudáveis.

Temos que pensar com seriedade na forma pela qual plantamos e criamos nossos alimentos, para podermos observar o bem estar coletivo, minimizando o sofrimento de nossa espécie e das outras, e permitindo que a Terra continue sendo uma fonte de vida para todos nós. Se quando comemos destruímos outras criaturas ou o meio ambiente, estamos comendo a carne de nossos filhos. Precisamos analisar e discutir todos juntos o problema da alimentação – como comer, o que comer, e o que recusar. Esta seria uma verdadeira discussão sobre o Dharma.” (Thay)

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